A grande dama da arte alagoana comemora 90 anos com exposição, folheto de cordel, página na internet e nova edição do livro Arte Popular de Alagoas
Blog Aqui Acolá/ Iranei Barreto

A alagoana Tânia de Maya Pedrosa chega aos 90 anos com o mesmo entusiasmo de quando começou sua jornada pelo universo da arte, inicialmente como colecionadora e na sequencia como pintora Naïf, sendo reconhecida como uma das maiores representantes do gênero, com obras consagradas em salões de arte e bienais no Brasil e na Europa. A artista nos recebeu em seu apartamento para uma conversa regada as boas lembranças e também aos novos projetos, que incluem a exposição itinerante “Das Lagoas ao Imaginário Popular: Tributo aos 90 anos de Tânia de Maya Pedrosa”, que foi exibida na Galeria André Cunha – Minimuseu de Art Naif – em Paraty, no Rio de Janeiro, entre julho e agosto; e também no Complexo Cultural Teatro Deodoro, em Maceió, entre os meses de outubro e novembro de 2023. Ainda como parte das comemorações pelos seus 90 anos, foi lançado o folheto de cordel da exposição e nova página na internet onde é possível conferir a trajetória e trabalhos da artista. Além disso, a 3ª edição do seu livro “Arte Popular de Alagoas”, ainda sem data anunciada para o lançamento, está em processo de finalização.
Filha de Paulo de Ramalho Pedrosa, proprietário de uma fábrica de mármore e o segundo ecologista de Alagoas, e Benita Mathilde de Maya Pedrosa, professora de piano, Tânia de Maya Pedrosa nasceu em Maceió em 27 de outubro de 1933. Na infância foi uma senhorinha de engenho na casa grande da família, com aulas de piano e violão impostas pela mãe. Na juventude iniciou, por volta dos 14 anos, seu processo de “libertação” dos hábitos burgueses. “Minha mãe só comprava aquelas revistas Sabrinas. Eu tinha que esconder os livros, mas essas leituras me influenciaram. Então fui mudando e fiquei mais astuta. Fui me afastando da família, queria liberdade, uma coisa diferente em minha vida. Esse foi o momento de ruptura”, recorda.
Destinada a romper com as tradições a que lhe eram impostas pelo tempo e meio social em que vivia, a artista mudou os rumos da sua história através da arte. Transitou pela literatura, moda e finalmente pela pintura. E foi com a arte Naïf que encontrou prazer na vida e vem percorrendo esse caminho de descobertas, cores e saberes.
A cultura popular sempre foi um elemento central no seu universo particular, Tânia tem dedicado grande parte de sua vida na busca e valorização de artistas muitas vezes anônimos. “Fazia livros para artistas alagoanos, mas pintava meus quadros escondida”, lembra ela. Até que participou da Bienal de arte Naïf de São Paulo, em 1998, quando veio, enfim, o reconhecimento para um trabalho que ainda era mantido em segredo. De acordo com Margarete Regina Chiarella, curadora da Bienal Naif, Tânia conquistou em 1998, o Prêmio Aquisição, da Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo Sesc São Paulo. Na edição seguinte, em 2000, recebeu o Prêmio Destaque e, em 2006, mais uma vez, o Prêmio Aquisição. Em 2014, sua obra teve Menção Especial.





Além de colecionar exposições e menções como uma das maiores artistas Naïfs do mundo, iniciou uma jornada em busca de obras populares pelo Brasil que resultou numa enorme e importante coleção. “Ia para Boca da Mata, Caruaru, Recife, pelo sertão, subindo e descendo serra a procura de artistas. Eu me encantei muito”, revela. Uma parte desse acervo riquíssimo pode ser conferido no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de Alagoas (Iphan), na exposição “A invenção da Terra”.
As pinturas de Tânia se destacam pelas cores majestosas e pelos desenhos de traços simples, carregados de um universo simbólico nordestino, com referências às crendices populares e tradições religiosas, sendo ela uma cronista que interpreta e transpõe para as telas a realidade em que vive e respira. Segundo André Cunha, a obra de Tânia é uma explosão de talento em seu universo simbólico, praticamente uma expressão muito própria dela mesmo. “Tânia tem uma produção visceral, e não vem programada para agradar à crítica e ao público. Tem sua maneira de ler a cultura brasileira, ler o Nordeste, ler o Cangaço e a religiosidade popular”, enfatiza Cunha. Tenho muito orgulho que minha obra seja considerada Naïf, mas gosto sempre de lembrar que o que faço é escrever com os pincéis. E por meio deles construir uma memória visual da paisagem e de um modo de vida popular brasileiros, um jeito simples de viver. Isso é o que realmente importa”, explica Pedrosa.
Das Lagoas ao Imaginário Popular
A belíssima trajetória de Tânia Pedrosa foi pintada e bordada por mais de sessenta artistas de todas as regiões do país e apresentada na exposição “Das Lagoas ao Imaginário Popular: Tributo aos 90 anos de Tânia de Maya Pedrosa”, com curadoria de André Cunha e Parísina Ribeiro. “Sinto na alma um sentimento de felicidade, pela homenagem. É como se me transportasse ao começo de tudo, rejuvenescida em sonhos, na minha infância e juventude, quando comecei a criar minhas bonecas de pano, meus tapetinhos bordados, minhas pinturas ingênuas, vida a fora, ” escreveu Tânia no livreto/catálogo da exposição. “ Hoje, sou uma pintora Naïf com muito orgulho, por pertencimento, emoção, raça, amor, vivência e observações. Por isso, vivo um momento de grande deslumbramento ao olhar cada obra, diante desses bordados prenhes de luz e pinturas de cores majestosas. A minha existência, transformada em arte genuína, pode sim, acredito eu, ser um grande espelho onde todos estamos refletidos. ”










Segundo Parísina Ribeiro, uma das curadoras da exposição, “Das Lagoas ao Imaginário Popular” apresenta momentos da trajetória das “várias Tânias” existentes na artista, desde sua infância até os dias atuais. “Realizamos uma pesquisa junto aos familiares e com a própria artista em que foram convidados a rememorar o passado e visitar os álbuns de fotografias e baús de memórias afetivas. Realizamos também encontros virtuais com os familiares e com os artistas convidados apresentando um pouco do mundo desta grande artista”, conta. As obras, inspiradas nos trabalhos de Tânia, foram desenvolvidas na estética Naïf, com técnicas de bordado livre, dioramas, mosaico e pintura.




























O co-curador da mostra, Pedro Cruz, lembra também que a homenagem aos 90 anos de Tania abrange não só o universo transformador de sua vida pessoal, mas também o contexto em que ela se formou como artista e se consolidou como uma das mais importantes colecionadoras do país. “As principais representações culturais de Alagoas aparecem com destaque neste núcleo que tem importância vital para a compreensão da complexidade de estímulos que nortearam a obra da artista. A intensidade dramática do cenário social e cultural alagoano é a espinha dorsal do trabalho de Tânia, que revela no colorido intenso de suas obras o desejo profundo por um mundo mais justo e mais solidário. ”


A montagem da exposição em Paraty reuniu trabalhos de mais de sessenta artistas que celebraram a vida e o legado de Tânia em suas telas e bordados. Em Maceió, André Cunha, curador da mostra, foi desafiado a não apenas apresentar os trabalhos destes artistas, mas também incorporar obras de Tânia e parte de sua coleção de arte popular. Além de convidar mais 18 artistas alagoanos para representar em telas os folguedos do nosso estado. De acordo com André, a residência de Tânia, que é um espaço onde ela vive cercada por suas obras e sua coleção de arte, foi sua grande inspiração para a exposição montada na Galeria do Complexo Cultural Teatro Deodoro, provocando no visitante a sensação de estar entrando no universo participar da artista. Cunha é também autor do livreto de cordel/ catálogo, lançado no dia 27 de outubro, data em que a grande dama da arte alagoana comemorou 90 anos.
Material extra
Catalogo da exposição Das Lagoas ao Imaginário Popular
Coluna Aqui Acolá – Revista Painel Alagoas
Vídeo – As várias vidas de Tania


























