*Nicollas Serafim
Com 17 anos de caminhada, de pé no chão da estrada da vida artística, o cantor e compositor Fidellis empunha, além de sua sanfona, a bandeira do forró autoral alagoano. Nesta 5ª edição da coluna MusicAL, Fidellis relata sua trajetória de lançamentos e tocadas nordeste adentro, assim como suas inspirações e aspirações no mundo do forró.
Maceioense, ele lembra, destaca e não nega que sempre bebeu da fonte de Luiz Gonzaga. “Foi ainda na escola em 2006 que a música entrou de vez na nossa vida. A gente tinha grupos de teatro, música, dança, capoeira… Eu era do teatro e lá a gente começou a tocar como brincadeira”, recorda ele. “Eu não era sanfoneiro, só batia zabumba. Ali a gente criou um triozinho e tocávamos nas casas dos professores, nas portas de lojas, nas quadrilhas da região”. No ano seguinte, já havia iniciado o estudo com a sanfona, e em 2008 começou a tocá-la em peças de teatro. “Fui, de 2008 a 2011 um sanfoneiro de peças de teatro, fazia a música em cena e até atuava”.
Desde sempre e até agora, a referência máxima do Rei do Baião se mostra clara em sua veia artística. “Luiz Gonzaga é o esteio que sustenta o meu pensar”, afirma. “Dele tiro aquilo que é necessário pra um artista que enxerga o forró de maneira séria, como uma coisa importante. Agora sobre outras referências, volta e meia me agarro a um artista fora do meu gênero, pra oxigenar mais a mente. Por exemplo, no primeiro semestre escutei muito Simonal. Agora tô atracado com Elis. E já me agarrei à Clara Nunes, Carmen Miranda, Adoniran Barbosa, Xangai, Elomar”.
Em 2012, já de sanfona no peito, realizou o projeto “Lula Vive”, no qual fazia uma viagem pela história do baião e de seu criador, desde os anos de 1940 até hoje. “Tive o patrocínio na UFAL e o projeto me rendeu visibilidade. Desde então, me tornei o Fidellis que todo mundo já conhece hoje”, revela.
Em 2014 surge seu primeiro trabalho autoral, o álbum “Baião de São Gonçalo“. “Segui tocando meus baiõezinhos e gravando. Em estúdio sempre priorizei gravar minhas próprias músicas e de lá pra cá gravei mais uns quatro”. Seu último lançamento aconteceu em 2022, festejando os 110 anos de Luiz Gonzaga no EP chamado “Pé de Serra“. “Nele gravei uma música de mesmo nome, de autoria de Luiz Gonzaga, e lançada originalmente em 1942 como uma instrumental”, diz Fidellis.
“Pus uma letra, tive a permissão da família Gonzaga de gravar cantando e lancei. Este EP conta com mais três músicas, cada uma com uma participação especial: Bruno Palagani, Chau do Pife e Joquinha Gonzaga (que é sobrinho legítimo de Luiz Gonzaga, grande sanfoneiro e cantador que mora lá em Exu-PE)”.
Ele conta que vem colecionando várias parcerias em seu caminho artístico “Lailson Lima, Gustavo Gomes, Sérgio Feitosa, Luiz Martins, Jonatas Henrique… E cada um tem um processo diferente: um recebe a música e põe a letra, outro o contrário, outro completa a letra e eu faço o resto, outro completa a música e eu faço a letra… Não há uma forma definida de trabalho”. Já em seu processo de composição integral, ele destaca que a criação se dá de dois modos:
“A música vem de repente na cabeça, andando na rua, solfejando, assobiando, pensando aleatoriamente nas coisas da rua. Ali mesmo pego o celular e gravo as bobagens que faço. Em casa, traduzo pra sanfona, acho um caminho melhor, harmonizo, e tá lá. Agora as letras prefiro criar de madrugada, com a janela aberta, sentindo o vento e o silêncio. É uma paz que me deixa sozinho, sem interferência de nada. E se a noite for de lua minguante, o negócio fica melhor. Não sei o porquê”.
Suas composições e gravações evidenciam um esmero no instrumental do forró, destacando sempre a trindade clássica: sanfona, zabumba e triângulo, como também adicionando elementos que somam bastante como o cavaquinho, pandeiro, baixo e violão. Tudo isso sem descaracterizar a aura do pé de serra, cheio de balanço e uma poética profunda e simples, como a nossa música popular sempre foi.
Ao contemplar sua caminhada, Fidellis reconhece que a estrada é longa e árdua, mas está sendo percorrida de forma concreta. “Hoje me sinto como se tivesse acabado de construir o alicerce da minha casa, que demorou 17 anos pra calcular, planejar e construir”, analisa. “Percebo que, pro meu lugar, já sou alguma coisa – pequena ou não, alguma coisa já sou. Isso me dá gás pra começar a levantar as paredes nos próximos 10 anos, quem sabe dê tempo de pôr o telhado também.” Um dos maiores obstáculos na carreira de artista independente é a falta de incentivo, segundo ele. “Vejo muita gente se queixando que a música popular hoje acabou. Liga a rádio e se queixa, vê a TV e se queixa, corre o dedo no celular e se queixa… Porém não vai ao show de um artista popular da sua terra, que produz e tem como princípio a história da nossa música brasileira”, destaca.


“Há muita queixa e pouca força pra ouvir coisas novas e perceber que a música brasileira não morreu. Estamos todos aqui, só não estamos sob os holofotes da grande mídia, que já tem o seu produto. Já pro lado do setor público, as políticas públicas de cultura andam a passos de tartaruga, diz que vai, mas ainda nem foi”, lamenta.
“Já fui de sonhar muito, mas os caminhos vão se revelando e mostrando outras realidades e possibilidades. Hoje só desejo ter dignidade pra trabalhar, produzir muito mais obras e deixar alguma coisinha guardada pra que outra geração possa pegar e dizer: é, esse foi o Fidellis”.
Além dos palcos que alegra durante todas as semanas do ano em Maceió, Fidellis está em processo de preparação de mais um EP para ser lançado no ano que vem, direcionado paro o São João. “Os planos são esperar os resultados dos editais públicos, pôr o carro na estrada e pisar fundo. E claro, preparar o show pro São João do ano que vem, porque depois do Carnaval junho já começou pra nós que caímos em campo pra produzir e vender shows”, diz ele. “Então em abril, certamente, o novo EP já será lançado. Tomara.”







*Nicollas Serafim
Maceioense, 30 anos e jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas. Trabalhou como estagiário no portal de notícias mais.al e na Assessoria de Comunicação do Instituto Zumbi dos Palmares. Repórter colaborador do blog Aqui Acolá desde fevereiro de 2016, é também compositor e amante das palavras e das imagens. Seus interesses passeiam pelas manifestações e expressões populares, do folclore à crônica, do futebol à música.

