Exposição Paisagem-Miragem destacou belezas do Centro Pesqueiro de Jaraguá
O bairro histórico maceioense, que trouxe o status de capital alagoana para a cidade de Maceió é repleto de histórias, símbolos e paisagens. Buscando registrar as imagens pulsantes aos olhos dos artistas Paulo Santana e Flavia Gazzanéo foi que surgiu também a exposição “Jaraguá, Paisagem-Miragem”, com pinturas e fotografias retratando os cenários observados a partir do Centro Pesqueiro de Jaraguá. A mostra ficou em cartaz no Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa) – prédio também histórico do bairro – entre os meses de outubro de 2023 a janeiro de 2024.
Paulo Santana produziu 36 pinturas para a exposição, que segundo ele gira em torno da paisagem observada a partir do centro pesqueiro e sua transitoriedade aos sentidos de quem a vê. “Daí vem a associação à palavra “miragem”: o que se viu há um segundo atrás já não temos certeza tal a variação da luz, as garças que já se foram e os barcos ao sabor da maré. Não se vê uma mesma paisagem duas vezes”, diz ele. “As pinturas foram realizadas a partir da observação no local e em única sessão. Alguns trabalhos foram realizados há mais de 10 anos, mas só tomou corpo como tema durante a pandemia da COVID a partir de uma troca de ideias com a Flávia”.
O curador da mostra Francisco Oiticica destaca que o projeto de montagem partiu da ideia de que a miragem não entrega tudo, mas sugere produzido pelas necessidades do que queremos ver. “Também a imagem na miragem se dissipa ao dela nos aproximarmos sendo atravessada pelo seu entorno, conformando uma paisagem composta, misturada”, ressalta.
Flávia Gazzanéo integra a exposição com 14 fotografias que foram instigadas a serem produzidos por seu amigo pintor Paulo Santana. “Ele já fazia telas há um bom tempo por ali pelo Centro Pesqueiro de Jaraguá e quando soube que eu estava fotografando profissionalmente ele me chamou pra ir lá conhecer o local pra ver se eu me interessaria em fotografar lá”, recorda ela. “Esse convite acabou se tornando um presente, na verdade, porque eu sempre passei por ali e sentia vontade de fotografar, mas faltava a coragem”.
A partir daí, os dois começaram a trabalhar juntos no mesmo cenário, cada qual a seu ofício e daí surgiu a ideia de juntar as duas linguagens artísticas numa exposição. “Este trabalho tem como objetivo não só mostrar e divulgar os nossos trabalhos, mas chamar a atenção para aquela região e o quanto de beleza que existe ali, mas que muitas vezes as pessoas não notam”, comenta Flávia. Para Paulo, a junção dos dois formatos artísticos que compõe a exposição se deu de maneira espontânea. “Foi natural, considerando a interseção entre a fotografia e a pintura, a temática comum e a sinergia desenvolvida no decorrer dos trabalhos”, afirma ele. “É como se fosse um complementando o outro”, diz Flávia. “Existe um diálogo entre as fotografias e as pinturas e o resultado deu um dinamismo maior à exposição, apresentando também às pessoas pontos de vistas diferentes de um mesmo tema”, conclui ela.
O trabalho tem a curadoria do artista Francisco Oiticica que destaca que o objetivo foi reunir diferentes expressões artísticas em um percurso que correspondesse ao título ‘Jaraguá, paisagem-miragem’. “Também o título foi tirado do que as fotos de Flávia Gazzanéo e as pinturas de Paulo Santana significavam em conjunto. Uma abordagem do equilíbrio precário entre realidades de um tempo passado (a comunidade de pescadores, origem do bairro de Jaraguá) e a de um tempo presente (a orientação turística para o bairro) em um espaço desarticulado”, revela Francisco. No texto curatorial, ele salienta que “Flavia Gazzanéo e Paulo Santana se dispuseram a enfrentar com lentes e tintas a colônia de pescadores de Jaraguá, tradicional bairro portuário de Maceió. Foram as duas enseadas deste porto natural que lhe proporcionaram crescer de importância, ao escoar a produção madeireira e agrícola de Alagoas e servir para o atracamento de navios na cidade, capital do estado em 1839”.
“Desde os primórdios, portanto, existia nesta ponta de terra um ajuntamento de pescadores e fabricantes de embarcações que caracteriza e dá vida ao espaço. Recentemente, com a chegada dos cruzeiros marítimos, resolveu a Prefeitura remodelar a região, e boa parte das antigas construções foram removidas. Antes que desapareça de todo o seu primitivo modo de vida, Flavia e Paulo decidiram fincar tripé e cavalete para fixá-lo”, completa o curador.
“Assim, destaquei nas fotos de Flávia o seu aspecto atmosférico acentuado pelas transparências que exploraram os painéis de vidro, por exemplo. As pinturas de Paulo eu as posicionei sobre uma(várias) longa(s) linha(s) do horizonte de modo que sugerisse(m) a amplidão da praia da Avenida e a sensação de que algo muito maior nos cerca além das picuinhas cotidianas”, revela Francisco acerca da disposição das obras no espaço do Misa. “O espaço nos envolve e convida a entrar quando eu fechei as laterais com fotografias impressas em grandes panos/planos, dispus totens dos artistas recepcionando os visitantes e direcionei esse olhar circular para a diagonal em que se encontram (vistos até pelo vidro plotado) as pinturas à distância”.
Paulo sente que a repercussão do trabalho tem sido muito boa por parte do público, muito embora o Misa não ser acessível nos feriados e finais de semana. “Quanto às mídias sociais e os meios impressos, vídeo e rádio difusão fomos recebidos de braços abertos, na verdade com muito incentivo até”, relata. “Nos surpreendeu positivamente a satisfação de ver no rosto de cada um que vê a exposição a alegria e a surpresa boa de que ali, tão perto, existem tantas coisas belas para serem vistas”, afirma Flavia.
Para Paulo, a exposição Jaraguá, Paisagem-Miragem lhe trouxe incentivo para continuar trabalhando. “Também a certeza de que artisticamente não preciso “reinventar a roda”para passar minha mensagem. Meu momento é de identidade firmada com o meu meio de expressão e o lugar onde vivo”, diz ele. Já para Flavia, a mostra foi um divisor de águas marcante, já que é a sua primeira individual em termos de fotografia. “Foi um trabalho que durou cerca de dois anos e ver esse projeto se concretizar é de uma alegria muito grande”.
*Esta matéria foi publicada Coluna Aqui Acolá – Edição 77 da Revista Painel Alagoas