MusicAL: Poesia e realidade nas músicas de Arielly Oliveira   

*Nicollas Serafim   

A 4ª edição da coluna MusicAL é dedicada à força feminina do rap alagoano, através da poética urbana e intimista de Arielly Oliveira. A cantora e compositora de voz e letras potentes, marcantes e expansivas refletiu sobre a retrospectiva de sua carreira, desde o início como uma das precursoras do movimento hip hop no estado, bem como conversou com o Aqui Acolá sobre seu momento atual, no qual vem se reinventando e “rebalançando” em suas influências musicais.   

Arielly é maceioense, negra, mãe de dois filhos, moradora do bairro do Jacintinho, escreve e canta suas próprias canções movimentando-se no rap alagoano desde 2007. Porém, a música tomou conta de sua vida desde criança. “Aos 13 anos, cantei em um coral na escola e aos 15 em uma banda de reggae”, lembra ela. “Mas só em 2007 conheci o movimento hip hop, e o rap faz parte da minha vida até hoje. No fundo era bem isso o que eu queria, uma música em que eu transmitisse as minhas necessidades e as de onde vim”, revela.   

Integrou o primeiro grupo de rap feminino em Alagoas chamado Biografia Rap, o qual também foi o primeiro formado apenas por mulheres a gravar um CD no estado. Já em 2015 lançou seu primeiro álbum solo.

Foi quando me dei conta da necessidade de levar meu trampo a sério. O EP Negra Soul me ajudou muito nesse processo de profissionalismo”, diz. “Foi importante porque também consegui levar esse material para alguns estados do Nordeste”, lembra. “Mesmo que a gente não consiga ser o tempo todo profissional, a gente vai entendendo que nossa arte tem que ser alimentada e isso leva tempo, e principalmente dinheiro”. O disco teve também um lançamento físico, patrocinado pelo selo Solar Discos.   

Apesar de estar inserida no movimento hip hop alagoano e ser peça importante no rap feminino, a música e as pretensões de Arielly se expandem para outros horizontes musicais. “Em 2018 abri o show do cantor João Bosco no projeto MPB Petrobrás e foi nesse momento que eu entendi onde eu deveria estar”, comenta. “Não é só nos palcos dos eventos feito pelo hip hop. Fui para a Bahia cantar em um festival de música, e lá estava eu novamente me misturando com outros gêneros”.   

Para ela, essa diversidade é tanto um estímulo quanto um caminho para evolução. “É sobre isso a evolução de um artista, se espalhar… Minha trajetória na música não foi fácil, quis largar por diversas vezes”, revela. “Para uma mulher preta é muito difícil, e mesmo que você seja muito boa, música intimista não vende, ‘eles dizem’. Quem promove a arte aqui e em qualquer lugar sabe muito bem que na verdade é questão de estratégia e incentivo para a arte funcionar, seja qual for o gênero”, analisa ela.   

Além disso, ela destaca a dificuldade das mulheres se inserirem dentro desse movimento.

É muito difícil porque é um espaço que ainda é muito machista, os homens é quem estão mais unidos a se movimentar como grupo, infelizmente o machismo ainda faz com que nós mulheres ainda não nos encontremos em um coletivo, e isso faz com que a nossa visibilidade seja mais lenta”. Para ela, essa também é uma das razões para que seu trabalho se espalhe em outros gêneros. “Lancei um álbum intitulado “Sem papa’s na língua” que mostra bem essa minha transição. Mas ainda assim, me encontro no rap.”   

Seus álbuns e videoclipes estão disponíveis em seu canal no Youtube. “Lá tem também uma live belíssima lançada na virada de 2022 para 2023, que mostra uma conquista importante da minha carreira: agora eu deixei as Pick-ups para fazer um trabalho com banda, que era meu sonho fazer um som mais orgânico e humano”, diz ela. “Eu trabalhava com beat (instrumental) e eu sentia que era super mecânico, talvez alguém faça isso diferente, mas com banda é tão mais expressivo e estou muito feliz de estar junto com essa galera que se dispõe e gosta do meu trabalho. Tá funcionando muito, e vem coisa boa por aí”. O grupo que recentemente vem acompanhando a artista em suas apresentações e gravações é formado por Pedro Salvador na guitarra, Nego Pedru no baixo, Carol Vieira na bateria e Marvin Silva na guitarra e violão.   

Suas referências e gostos musicais se expandem de Alagoas para o Nordeste e daí para o resto do mundo. “Eu gosto de música, sou eclética, tenho grandes referências. Amo ouvir a Mary Alves, Llari Gleiss, a paraibana Camila Rocha e outras tantas”, afirma. “Agora eu tenho uma referência muito forte da música da Kendra Morris, ela é canadense e faz o melhor soul que eu já vi na minha vida. Também gosto de Gal Costa, Rita Lee, Djavan, Gil, Marisa Monte, Elza Soares e outras e outros que me fazem balançar e criar”.   

Seu processo de produção e composição é bastante individual e introspectiva. “Eu sou uma artista vibrante que precisa estar no momento para compor. Preciso sentir minha música. Não sou uma compositora que vive compondo, criando… justamente porque preciso estar realmente desligada de tudo”. Ao analisar seu momento atual de carreira artística, Arielly vê com bons olhos sua fase atual. “Eu percebo que estou em um belo momento, mesmo com as dificuldades que a gente encontra no caminho para expandir o trabalho, estou sentindo florescer algo lindo para o futuro e estou focada”.   

Os desafios são pesados para se manter na ativa de uma carreira musical independente, principalmente em Alagoas, como dificuldades para gravar, espaços para cantar. “É muito triste o jeito que somos tratados por aqui, é angustiante e desmotivador. E não falo somente dos órgãos que comandam o dinheiro da cultura que estão pouco se importando se a gente está comendo e tendo força pra manter nossa arte, falo da galera ‘amigxs’ que vê nossa luta diária como artista e quando nos convidam para cantar reclamam do valor do nosso cachê”, desabafa. Contudo, Arielly revela que mais do que “fazer sucesso”, seu principal objetivo dentro do universo criativo musical é ser autêntica e transparente em seu trabalho.

É poder ser eu mesma no palco sem ninguém me cobrar nada, ser uma mulher livre e conseguir pagar meus músicos assim que eles subirem no palco comigo, ser uma referência foda para meus filhos”, reflete “Meu desejo é que a arte avance!”. Ela revela que está produzindo novos materiais num ritmo cuidadoso. “Estamos caminhando bem no pianinho, uma hora dessas vai sair algo muito legal pra compartilhar com a galera. O processo é lento, mas vai valer. Só não quero que esperem”, brinca.   


*Nicollas Serafim – Maceioense, jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas. Trabalhou como estagiário no portal de notícias mais.al e na Assessoria de Comunicação do Instituto Zumbi dos Palmares. Repórter colaborador do blog Aqui Acolá desde fevereiro de 2016, é também compositor e amante das palavras e das imagens. Seus interesses passeiam pelas manifestações e expressões populares, do folclore à crônica, do futebol à música.

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