Intensa produção de Gabi Coêlho em duas exposições fotográficas em cartaz 

A artista Gabi Coêlho se destaca pela sua singular e característica produção fotográfica autoral, misturando autorretratos, efeitos visuais e pinturas. Em cartaz na galeria do Sesc Arapiraca com “Lírios, Rosas e outras flores“, e no Complexo Cultural do Teatro Deodoro em Maceió com “Imensidão Íntima“, Gabi revelou detalhes de sua produção e de planos para mais uma mostra individual ainda este ano, ressaltando a criatividade e a delicadeza de suas obras no cenário da fotografia alagoana.  

Segundo ela, a ideia de cada uma das exposições foi que elas fossem montadas especificamente pensando nos espaços a serem ocupados. “No caso de Lírios, havia o espaço da galeria do Sesc em Arapiraca. É quase um cubo neutro, então eu consegui enxergar ali o meu jardim noturno”, diz a artista. “Eu queria que cada uma das minhas “flores” aparecesse saltando em meio a esse jardim criado ali, fazendo com que as pessoas se sentissem entrando num jardim, no breu da noite, com as flores iluminadas pela luz da lua, com suas cores saltando aos olhos”. Sob a curadoria de Karla Melani e em cartaz desde o final de julho, “Lírios, Rosas e outras flores” tem visitação gratuita de segunda à sexta das 9h às 18h até o final do mês de outubro.

Já em sua Imensidão Íntima”, na galeria do Complexo Deodoro, as paredes de vidro enchem o espaço de luz. “Não é um ambiente neutro; o espaço tem sua própria identidade. Então a ideia foi de explorar uma dicotomia do espaço”, diz ela. “Trazer a amplitude, a Imensidão na parte de baixo e a intimidade na parte de cima da galeria”. A mostra estreou também no final de julho e possui a marca ainda de ser a 100ª exposição da Galeria de Artes Visuais do Complexo, ficando aberta à visitação até 28 de agosto.

Para isso, Gabi Coêlho optou por trazer fragmentos de duas séries. “Na Imensidão, onde as pessoas são engolidas por um espaço amplo, com uma casa aberta, exposta, eu trago as cores vibrantes de Lírios em paredes super coloridas. As pessoas estão dentro da casa mesmo sem intenção”, explica ela. “Já no andar de cima, trago um pedaço de Breus, onde a pessoa pode espiar a intimidade pelas brechas. Não é mais um espaço aberto que engole, é um espaço lacrado, onde para ver é importante que você queira se deslocar até as frestas”.

 Sua percepção como artista expositora é que os trabalhos selecionados tem que conversar com o local escolhido. “Mesmo sendo o mesmo trabalho, muitas vezes a gente tem que pensar a exposição com cuidado para conseguir passar a mensagem que a gente deseja”, pensa. “Então a escolha pelas imagens e pela forma de compor as mostras vem majoritariamente do que o espaço “pede”, da identidade desse local”.

Ambos os ensaios que deram origem às obras expostas foram feitos durante o período da pandemia, dentro de seu apartamento em um espaço bastante reduzido. “Breus foi feito num primeiro momento, onde a angústia da solidão gritava no silêncio das paredes das casas presas. Lírios foi produzido ainda na pandemia, mas numa perspectiva mais “otimista”, na qual eu acreditava na possibilidade de atravessar as pessoas com meu trabalho através das telas. O intuito não era mais um desabafo, mas uma forma de provocar sensações no outro”, relembra. As imagens que compõe a série Breus foram produzidas com véus, uma moldura e uma câmera. “Tudo muito simples, num espaço de 2x2m. Em Lírios eu quis ressignificar alguns trabalhos que havia fotografado em 2018”. As fotografias impressas dessas obras foram manipuladas manualmente pela artista. “Pensei em machucar as imagens, em usar água, fogo… Mas foi no uso das tintas, recurso já explorado no meu trabalho outras vezes, que encontrei mais sentido”, revela.

Além das duas mostras simultaneamente em cartaz, Gabi Coêlho já tem em mente exposição pensada para a Boutique Bon Vin, na Ponta Verde para meados de outubro. “Lá pensei em outro projeto, bem distinto dos dois expostos agora, chamado “A Boca do Mundo”, uma montagem que combina alguns outros trabalhos com autorretrato”, adianta a artista.

Toda essa movimentação em cima de seu trabalho artístico é motivo de felicidade para Gabi. “Fico feliz por cada um dos trabalhos e feliz pelos dois simultaneamente. Poder mostrar minhas obras furando a bolha dos algoritmos, ver a reação das pessoas descendo as escadas depois de ver Breus… Tudo isso é riquíssimo e é uma experiência que o mundo virtual jamais me daria. Por mais que as pessoas sempre tenham me mandado mensagens e feedbacks, estar perto, ver de perto… Isso é o que eu, como artista, busco”.

Gabi Coêlho entrou para o mundo do autorretrato conceitual no início de 2018 com a professora carioca Jacqueline Hoofendy, o que causou um impacto grande em sua cabeça e em sua fotografia. Além disso, outra característica de seus trabalhos é o fato de não aparecerem muitos rostos. “Gosto de utilizar a longa exposição, quando a câmera consegue captar mais movimentos do que o normal” afirma. “Se eu usasse meu rosto sempre, iria perder um pouco a originalidade. Então nesse tipo de trabalho, gosto de deixar a imagem meio turva, meio disfarçada”.

De lá para cá, ela passou a se debruçar sobre a fotografia autoral, indo além dos autorretratos. “Eu me vejo mais madura como mulher e como artista”, analisa ela. “Sem afobamentos, sem a preocupação de agradar, entendendo exatamente meu tamanho. Sem querer mais nem menos reconhecimento pelo meu trabalho. Quero tudo na justa medida. E acho que isso traz mais calma e mais graça para tudo. Em paralelo a isso, com muita vontade de seguir produzindo, seguir construindo meu trabalho, elaborando e aprimorando minha pesquisa e recebendo o público”, conclui.


*Esta matéria foi publicada Coluna Aqui Acolá – Edição 72 da Revista Painel Alagoas

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