As várias facetas de Francisco (Elias) Oiticica Filho

O rio fervilhante e caudaloso do trabalho de Francisco Oiticica Filho, ou aliás, Elias, tem diversas ramificações. Da fotografia à pintura, da escultura à intervenção, apesar dos formatos diferentes, ele mantém um fundamento em comum em todas as suas obras, o caráter vanguardista e inovador, sempre buscando provocar o público com algo a que ele não esteja acostumado. Ele contou sobre sua história, ideias, trabalhos e sua última exposição visual “Elias aliás: depois do fim da pintura“, que ficou em cartaz durante o último mês de abril no Complexo Cultural do Teatro Deodoro em Maceió.

Francisco é artista visual, professor e escritor, nasceu no Rio de Janeiro, mas é filho de alagoano e mora em Maceió desde 1994. Foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se formou em Pintura na Escola de Belas Artes. Logo em seguida, surgiu uma oportunidade de trabalhar na Ufal e veio para substituir nada menos que Celso Brandão nas aulas de fotografia da universidade. Foi nesse período, o “antes do fim da pintura” que a linguagem fotográfica tomou-lhe o interesse. “Ela foi ganhando um espaço crescente no meio artístico como uma linguagem contemporânea, pelo fato de, entre outros fatores, ser uma mistura de vários campos de conhecimento. Então eu deixei a pintura meio de lado e investi na fotografia”

Seu trabalho com a fotografia também é longe do senso comum. “Gosto do imprevisto, do ambíguo, do contraditório e do paradoxal. Isso me permite concentrar a pesquisa no olhar e na recepção, na fotografia como um fato social, mais do que em seu aspecto mecânico, convencional”. A pós-produção e a manipulação também são elementos que Francisco utiliza em seus trabalhos. “No equipamento eu gosto muito de trabalhar com câmeras sem muita sofisticação, isso me permite incorporar o que não é evidente, explorando a nitidez como um acidente, não uma obrigação”. Já expôs no Rio, na França, em Pernambuco e em Alagoas. 

Após um longo período dedicado à fotografia, Oiticica voltou a alimentar seu lado pintor, o que gerou a exposição “Elias aliás: depois do fim da pintura”. Segundo ele, esse “depois do fim” refere-se a si próprio.

A pintura parecia que estava no meu passado”, analisa. “Chamo-as de rastros de tinta, porque a forma como ela foi feita buscou também o experimental e uma proposta de abordar criticamente a produção artística tanto minha, quanto contemporânea”. Além dos quadros, também fizeram parte esculturas ou relevos de parede, como denominou o artista, de uma característica iconoclasta. “É uma espécie de elogio à gratuidade da criação artística ao me deixar levar pelas sugestões do próprio material e uma certa vontade ou inteligência de fazer das mãos”.

“Lembro que convidei algumas pessoas para verem as primeiras pinturas que compuseram essa exposição, isso ainda em 2019 antes da pandemia”, recorda ele. “Percebi que elas provocaram um riso nervoso, sem conseguir dizer nada, meio que dando a impressão que algo as desestabilizou. Uma certa repulsa, um distanciamento. Essa primeira e espontânea reação me interessa bastante, principalmente das pessoas que não são do meio artístico”. Essa estranheza mútua, tanto das pessoas que viram o trabalho, quanto do artista ao ver essas reações casou um incômodo inicial em Francisco, mas logo se revelou para ele uma questão ratificadora do intuito do trabalho. “É tirá-las da ‘zona de conforto’, expressão da moda”, diz ele.

A exposição teve montagem de Alice Barros e Robertson Dorta. Segundo Alice, “Elias, Aliás” reviveu-lhe a lembrança de alguns mestres que teve na academia. “Várias experiências teóricas e práticas, como uma revisita, um passeio pela história da arte e da literatura”, declara ela. “Foi como acordar memórias afetivas, tanto pela presença e maestria, o compartilhamento de ideias, do artista e curador Francisco, durante o processo de montagem, com sua didática próspera de reflexões infinitas, quanto pela diversidade das obras apresentadas. A construção, a desconstrução, tudo sendo refletido, como uma aula, na prática, sem artifícios; ao contrário, até mesmo o fato de o autor expor uma coautoria de seu inconsciente, o “Elias”, aliás, agora desvelado nos aproximou pelos interiores de nós mesmos”, afirma.

Um dos pontos fortes da mostra foi a instalação no chão do térreo da galeria, mas que deveria ser contemplada do primeiro andar com as palavras “Tosco, Vago, Reles, Nulo”. Segundo Francisco, foram adjetivos desvendados por ele a partir dessas primeiras reações, e que têm ligação com o conceito da exposição.

As obras são feitas de uma substância que é tosca; geram uma impressão de vagueza, meio vaga sobre o que querem dizer; tratam de coisas que são insignificantes, reles; e finalmente desemboca naquela pergunta – para que tudo isso? Ou seja, elas tenderiam a ser consideradas algo sem nenhuma finalidade, de nulo proveito”, traduz.

No entanto, o processo de produção e o modo como as obras são feitas contrariam os significados imediatos dos adjetivos descritos, razão pela qual gera um turbilhão de reações e sentidos, próprio das obras de arte. Esse trabalho se configura como um site specific, uma categoria de arte contemporânea feita especificamente para um espaço determinado. “Fiquei muito feliz com a solução dessa obra, também por que não me lembro de outro site specific em Maceió e ela foi determinante para o resultado da mostra”, revela Francisco.

“Elias nos revela a arte-ofício, de pairar na paisagem literária, experimentar com o tato-olhar o desenho geométrico desnudado dos objetos, mirando o que estava além: a poesia impermanente dos vazios-desenhos por entre as formas das coisas mínimas que foram sendo moldadas, descontruídas, alteradas, subvertendo a perspectiva de “ser só utilitário-descartável”, a nos convidar à contemplação, explorar o poema-espaço, a partir do imanente valor implícito em cada obra” analisa Alice Barros.

Ele vem com seu trabalho buscando colocar em fricção os conceitos de “coisa, objeto e obra”. “Fazer a obra voltar a ser a coisa que ela tinha deixado de ser no processo de sua instrumentalização em objeto”, enfatiza Francisco. “Venho trabalhando muito nessa chave, mesmo que em suportes bidimensionais como a fotografia”. Essa proximidade pode ser contemplada e analisada no livro “Murmuro: ensaio sobre o imprevisto”, lançado por ele em 2018 pela Editora Graciliano Ramos. Nesse trabalho, Francisco fotografou o destino que se dá às coisas que não mais servem, encostadas nos muros da cidade.

“Gosto de utilizar atualmente materiais não-artísticos, de partir de uma informação previamente dada que funcione para mim como um agente detonador e provocador do processo”, reflete.

Os próximos passos de Francisco Oiticica incluem uma exposição individual em São Paulo no mês de junho. “Será um outro projeto totalmente diferente desse, também muito experimental, são trabalhos de base fotográfica, obras recentes que ainda estão sendo produzidas ou em fase de finalização”, revela. “Também vai ser muito importante para mim levar o nome de Alagoas para fora de seus limites territoriais”. Ele pretende lançar outro livro de fotografia, desta feita resultado do grupo de estudos coordenado pelo artista durante a pandemia dentro do Coletivo Alagoano de Fotografia. “Foi um período de um ano de encontros (remotos) e a ideia é lançar ainda este ano com o título ‘Fotografia por vir: o que clicar?”.


*Esta matéria foi publicada Coluna Aqui Acolá – Edição 70 da Revista Painel Alagoas

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