Artes Exposições

Legado de Achiles escobar e memorias da infância de Persivaldo Figueirôa em exposição na Galeria do Teatro Deodoro

Em “Carrossel” e “Traje & Tória – Poesia da Cor”, o público tem a oportunidade de adentrar no imaginário dos artistas Persivaldo Figueirôa e Achiles Escobar (In Memoriam).

Em cartaz até 11 de setembro, as mostras individuais “Carrossel” e “Traje & Tória – Poesia da Cor” – montadas na Galeria de Artes do Complexo Cultural Teatro Deodoro – promovem um verdadeiro encontro com a infância de Persivaldo Figueirôa na festa de São José em Vertentes, interior de Pernambuco, e com o legado do artista visual Achiles Escobar, falecido em 27 de março deste ano.

A exposição de Achiles, que estava agendada desde o início do ano e seria realizada pelo próprio artista, com seu falecimento, Chico Simas, Marta Arruda e Persivaldo Figueirôa, amigos mais próximos dele, tomaram a frente e decidiram fazer a curadoria. Eles decidiram manter as peças que seriam expostas e a mostra passou a ser em sua homenagem. Montada no mezanino, “Traje & Tória” é um passeio por telas, formas e cores. Algumas das obras estão inacabadas – elas proporcionarão ao público a possibilidade de conhecer um pouco do processo criativo dele.

No térreo da Galeria, Persivaldo Figueirôa dá vida às memórias de infância rememorando os parques de diversão das festas de interior. O carrossel de cavalinhos fez e faz parte desse universo. Persivaldo também homenageia dois amigos de vida e de arte: Achiles Escobar e Salles Tenório. “Telas, objetos, cavalinhos, biombo, brinquedo, enfim, a exposição ‘Carrossel’ comunga o lúdico e o reaproveitamento de materiais com a técnica da papietagem, que desenvolvi com o próprio Achiles, nas peças criadas para esta mostra”, explica. A mostra tem curadoria do próprio artista e de Marta Arruda.

Foram convidados para assinar os textos curatoriais das exposições a jornalista Iranei Barreto e o jornalista e brincante de Guerreiro João Lemos. Publicados nesta coluna, os textos dão uma dimensão da grandiosidade do trabalho e trajetória destes artistas.

Traje & Tória – Poesia da Cor

O vento favorável da arte girou a bússola do destino e o artista paranaense, de Cambará, Achiles Escobar desembarcou em solo caeté em 1986. Inquieto, inventivo e sedento por conhecimento foi colonizado e colonizou Alagoas através da sua arte, inspirou e foi inspirado pelas tradições populares, nosso povo, costumes, folguedos, carnavais e sobretudo pelo mar.

Ancorado no tradicional bairro de Jaraguá, local do cais do porto, tornou-se grande referência. Fincou seus pés e estabeleceu sua arte neste pedaço de Maceió. Artista e arte-educador multilinguagem foi aprendiz e mestre de um povo que sempre o olhou com encanto e estranhamento. Uma curva fora do trivial, assim era o tendão de Jaraguá! Trouxe cor, beleza e esperança, ousadia para o mais antigo bairro da capital. Conquistou respeito e admiração, não apenas por sua obra, mas também por seu espírito contestador. Tinha como grande marca uma personalidade forte, apaixonante; era feroz ao defender seu ponto de vista.

Escolheu viver da arte e em meio a ela. Palco e vitrine onde ele teceu sua história, a casa-atelier; conhecida no entorno como “Quina do Artista” e batizada por ele como “Atelier Tendão de Achiles”, ficava localizada na Travessia Cristóvão Colombo, numa esquina por trás do Mercado Público de Jaraguá, onde ele também tinha a loja “Calcanhar de Achiles”. Depois mudou-se para outra residência, também em Jaraguá, onde viveu por toda vida.

O seu contato com a arte, no entanto, vem desde criança. Aos seis anos de idade já encantava os visitantes com esculturas e desenhos feitos na areia da praia. Aos doze anos, teve sua primeira exposição “Caminho à fonte”. Um casal de professores na sua cidade natal – um alemão e uma austríaca – deram-lhe base para o conhecimento em artes plásticas europeia e para a música. Suas mãos habilidosas e mente inquieta alcançaram conhecimento no Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, fundamental para sua formação artística e como pesquisador. No Nordeste, encontrou terreno fértil para sua imaginação. Exímio pesquisador da cultura popular, se encantou pelo nosso carnaval, formou até um bloco, que saia todo ano nas prévias carnavalescas, o “Jaraguá é o Bicho”. Além disso, teve importante participação no processo de revitalização do Carnaval de Marechal Deodoro, no qual empregou seu talento na decoração, confecção dos adereços e bonecos gigantes.

Considerado uma das grandes referências da arte contemporânea em Alagoas, Escobar atuou por mais de três décadas no ofício, protagonizando exposições individuais e coletivas. Também realizou oficinas e participou de inúmeros eventos culturais. Sua obra percorreu o país, tendo trabalhos expostos em Salvador, Recife, São Paulo e Curitiba. 

 Na busca por sua verdadeira identidade, ergueu um legado plural e miscigenado, resultado da mistura de referências e da sua realidade nua e crua do que é a essência do artista. O seu olhar aguçado permitiu que ele trabalhasse com diversas matérias-primas e linguagens. Papel machê, papietagem, pintura, bordado, grafismo, sobras de retalhos, velhos caixotes de madeira; ele transformava lixo urbano em arte. Dar ressignificado às coisas foi sempre uma constante na trajetória do artista que também era colecionador de miniaturas e objetos.

Da sua mente fértil, surgiram esculturas inspiradas na fé, pinturas icônicas, instalações, máscaras, chapéus de guerreiro, bonecos gigantes, cenários, teatro de rua, instrumentos musicais rudimentares, dentre outros. A Figura feminina, a religiosidade, a literatura de cordel, personagens das nossas tradições populares, o calango representando o Nordeste, permearam suas criações, numa espécie de ligação implícita e explícita com o seu desejo de transcender.

Preocupado também em compartilhar seu vasto conhecimento e como forma de contribuir com a sociedade, Achiles desenvolveu, junto à comunidade, o projeto “Raízes nossa gente”, no qual ministrou aulas de artes para crianças e jovens da Vila dos Pescadores e de outras comunidades carentes, a intenção era fomentar o intercâmbio de fazeres, saberes e olhares entre as diferentes linguagens visuais. Além de ser responsável por formar mais de uma geração de artistas, inspirou a criação do projeto “Ateliê Sesc Aberto à Comunidade”, em que também foi convidado a participar de uma das edições.

Em “Traje & Tória – Poesia da Cor” temos a oportunidade de ampliar e fortalecer o legado de Achiles Escobar. A mostra individual refaz o percurso em que Escobar percorreu apresentando telas inéditas, que ele pintou para sua próxima exposição, trabalhos de variadas etapas e técnicas.  “… A sua vontade vai me fortalecer, o seu olhar vai se completar com o meu, porque será transformado não em uma grande obra de arte, mas em uma grande história”, disse o artista certa vez.

*Texto Curatorial assinado pela jornalista Iranei Barreto


Encantado e Criativo

Das memórias que remontam a sua terra natal no Agreste Pernambucano, Persivaldo Figueirôa, revisitando o imaginário da infância apresenta-nos em cores expressivas sua nova exposição, conceituada a partir do Carrossel, brinquedo bastante concorrido entre as feiras, parques de diversão e festas dos santos padroeiros do povo nordestino.

Com ousadia, o cavalinho figura emblemática do carrossel será o condutor durante toda a mostra nos levando a uma criativa viagem pelos eixos da infância, valorizando o lúdico e promovendo as sentimentos mais belos de liberdade e reencontro com a criança que existe em nós – universo este, que na hora parece está em desuso principalmente por aqueles que vivem mergulhados na era digital.

Sob a ótica do renomado artista, o Complexo Cultual do Teatro Deodoro se transformará num deslumbrante parque de diversões composto por diversos objetos: pinturas, instalações e brinquedos que aguçarão nossa imaginação. Nesta mostra, Persivaldo, homenageia dois importantes nomes da arte pós-contemporâne, os já consagrados Salles Tenório e Achiles Escobar (in memorian), figuras de valor incalculável para as artes visuais do alagadiço.

Ao público, desejamos uma ótima diversão no Carrossel de Persivaldo Figueirôa!

*Texto curatorial assinado pelo Jornalista e brincante de Guerreiro João Lemos


Bastidores das exposições – “Traje & Tória – Poesia da Cor” e “Carrossel”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: