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Relatos da Pandemia: Dietal e o desafio de migrar dos palcos para a internet

A agenda para 2020 já estava praticamente fechada na Diteal, inclusive com vários adendos, justamente por se tratar do ano em que o Teatro Deodoro comemoraria 110 anos, data cheia e recheada de bons motivos para comemorar. Mas, a pandemia do Coronavírus se instaurou e com os decretos e distanciamento social, o teatro e as atividades culturais do Complexo, que essencialmente acontecem por meio do encontro presencial do artista ou obra com o público, foi das atividades mais prejudicadas pela pandemia.

Colocados a prova, a diretora-presidente da Diteal, Sheila Maluf, e o gerente artístico da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas, Alexandre Holanda, e toda equipe, precisaram se reinventar em busca de novas maneiras que possibilitasse o artista entrar em cena, mas longe da plateia e visitantes; além do acolhimento a classe artística e demandas burocráticas para “desprogramar” a agenda pensada para o ano que segundo Maluf seria um verdadeiro estouro.

“A pandemia chegou no ano em que o teatro Deodoro iria fazer 110 anos. Nós tínhamos um ano muito bem planejado. No primeiro mês veio o impacto e nós não conseguimos nos mexer muito, achamos que a pandemia seria passageira. Então, foi passando um mês, dois meses, três, foi aí que o Alexandre disse ‘Quem fica parado é poste’ e começou a pensar em como chegar ao público, já que não era possível o contrário. Foi quando começamos a esboçar uma reação” lembra a diretora.

Nós tínhamos um planejamento em todos os nossos equipamentos culturais – Teatro Deodoro, Teatro de Arena Sérgio Cardoso e Complexo Cultural – que se estendia até fevereiro de 2021. O impacto da pandemia foi muito grande, porque tivemos que viver a experiência de trabalhar desfazendo tudo que tinha sido planejado, com cancelamento de pautas e remarcações, e não só dos projetos da casa. Sem ter uma definição de quando voltaríamos a funcionar normalmente. Mas, sempre trabalhávamos com a expectativa de que voltaríamos em três mês, nunca poderíamos imaginar que fosse por um período tão longo“, explica Holanda.

A migração dos palcos para a internet foi o caminho mais seguro e também o mais desafiador e contraditório. Alexandre conta que motivados pela angústia de não deixar a instituição ser só um espaço físico que com a pandemia morresse, deixasse de funcionar e cumprir com a missão que é o fomento artístico principalmente da produção artística local, a Diteal buscou auxílio na tecnologia para pensar em novas formas de trabalho. No entanto, por ter como uma de suas principais missões trabalhar permanentemente a formação de plateias presenciais, uma das preocupações da equipe foi de não acostumar o público a consumir o produto artístico-cultural de casa no pós-pandemia.  Foi então que a Diteal optou pela linguagem documental com a produção de uma série de vídeos focados nos projetos que já estavam pautados, mas que foram prejudicados pela pandemia. Uma forma também de manter os artistas em atividade, contribuindo para minimizar a crise financeira do setor.

“Quando começamos a gravar os documentários a maioria dos artistas, que eram grupos, não se encontravam durante o período da quarentena, e naquele dia eles se encontraram no palco do Teatro Deodoro, que é o templo, fazendo arte, ” lembra Holanda. “E foi muito forte porque o teatro enquanto templo, ele supria a ausência daquele público presencial com aquela relação do artista no palco com o que representa o Teatro Deodoro enquanto templo, enquanto energia de todos que passaram e atuaram por ali. Os depoimentos eram sempre emocionados e comoventes, com lágrimas nos olhos e voz embargada”.

A primeira reação da Diteal foi aproveitar a arquitetura do Complexo Cultural Teatro Deodoro para realizar a 3ª edição da exposição “Amostra Grátis”, cujas obras ficaram direcionadas para a rua. Com curadoria de Viviani Duarte e Rosivaldo Reis, a exposição reuniu todas as obras contidas nas edições anteriores e apresentou trabalhos dos artistas Eva Le Campion, Lú Azul, Salles, Dênis Mattos, Orlando Santos, Frédérique, Mônica Torres, Marcos Aurélio,  Persivaldo Figueirôa, Dalton Costa, Myrian Almeida, Teresa Lima, Chico Viveiros (In Memoriam), Myrna Maracajá, Agélio Novaes, Alex Barbosa (In Memoriam), Eva Cavalcante, Hércules Mendes (In Memoriam), Lula Nogueira, Maria Amélia Vieira, Marcus Plech, Paulo Caldas, Pedro Cabral, Solange Chalita, Tânia Pedrosa e Violeta Plech. As imagens dos banners foram captadas pelo repórter fotográfico Pablo De Luca.

Na sequência,  começaram a  produzir os documentários,  dentre eles: uma homenagem a primeira dama do teatro alagoano, “Linda Mascarenhas”; Os três anos do programa “Jazz Panorama ao vivo” em parceria com o Clube do Jazz de Maceió e Juan Maurer; “História da Galeria de Artes do Complexo Cultural Teatro Deodoro”; “Especial de São João” com Chau do Pife, Xameguinho, Xexéu e Patativa; “A Percussão de Wilson Santos”; “Aniversário de 48 anos do Teatro de Arena Sérgio Cardoso”; “Emília Clark: Dança e Socialização”, parceira da Diteal no projeto de formação “Ballet a Serviço da Educação”; “A Arte da Palhaçaria” com o grupo Clowns de Quinta; “Natasha Wanderfull: Arte e Militância; e Diego Bernardes: “Aiê Orum”; Mestre Jurandir Bozo: “Trupé, Coco e Embolada”; e “Quartas Eruditas: Música e Socialização”. No total, foram 12 vídeos. Todos os vídeos estão disponíveis no canal do Teatro Deodoro no Youtube.

O Complexo Cultural também recebeu sua primeira exposição virtual: a mostra “Diálogos Urbanos”, do artista Pedro Caetano, com curadoria de Alice Barros e Robertson Dorta. Com um tour virtual em 360º online e obras espalhadas em dez outdoors por Maceió.  “Partitura Cromática” foi a 3ª mostra do circuito.  Apresentou trabalhos dos artistas visuais Ana Karina Luna, Ana Luiza Bargham, Cida Vieira, Daniel Cavalcante, Fátima Vieira, Flaviane Prado, Gabi Coêlho, Jackson Lima, Jennyh Gama, Kayo Queiroz, Layla Vilela, Lourani Correia, Lucilda Galvão, Magdália, Maria Albuquerque, Milla Pasan, Noeme Gomes, Raíssa Galvão, Rhuana Caldas, Synara Holanda, Tati Barros e Weber Bagetti. Com curadoria de Alice Barros e Robertson Dorta e assinatura do Coletivo Sonata Têxtil.

Já a mostra “Desaguar e Identidade” que aconteceu simultaneamente a “Partitura Cromática”, apresentou trabalhos dos artistas Julyanne Sêmele, Marina Nemesio, Yasmin Falcão, Nayò e Amanda Prado, além de Geoneide Brandão, Oriana Perez e Júlia Dudu, que também assinaram a produção artística, e Leonardo atuando na parte administrativa do projeto. A exposição buscou debater o protagonismo feminino na arte. A individual “Fauna“, de Ana Cahú, com curadoria de Lúcio Santos, marca o processo de transição, foi aberta virtualmente e, depois, liberada para visitação, conforme Decreto Estadual. É também a primeira mostra que continuará disponível no catálogo virtual da Diteal após o encerramento presencial na galeria.

Exposição Diálogos Urbnos, de PEdro Caetano | Foto: Hannah Copertino
Exposição Diálogos Urbnos, de PEdro Caetano | Foto: Hannah Copertino
Exposição Ciclos Visuais | Foto: Ascom/Diteal
Exposição Ciclos Visuais | Foto: Ascom/Diteal
Artistas Oriana, Marina, Júlia, Yasmin, Nayô e Amanda, da exposição Desaguar e Identidade | Foto: Leonardo Acioli
Artistas Oriana, Marina, Júlia, Yasmin, Nayô e Amanda, da exposição Desaguar e Identidade | Foto: Leonardo Acioli
Exposição "Partitura cromática" | foto: Hannah Copertino
Exposição “Partitura cromática” | foto: Hannah Copertino
Exposição "Fauna", de Ana Cahu | Foto - Hannah Copertino
Exposição “Fauna”, de Ana Cahu | Foto – Hannah Copertino

E não pense que o Teatro Deodoro deixou de comemorar seus 110 anos de arte. Para a celebração do aniversário da casa, a Diteal produziu uma série especial de vídeos com artistas e grupos locais falando de sua relação com o Deodoro e apresentando trechos de espetáculos. Participaram Wilma Miranda e Leureny Barbosa; Ballet Eliana Cavalcanti; Associação Teatral Joana Gajuru; Gama Junior; CIA Nêga Fulô; Chorões de Maceió; Studio Bella Danza; Fernanda Guimarães; e Grupo Cena Livre. Os vídeos seguem disponíveis no Youtube. Já o no Dia Alagoano do Teatro deste ano foi apresentada uma série com três vídeos de três grupos locais: ATA, CIA do Chapéu e Heteaçã contando sua história, falando das vivências e experiências no palco do Deodoro.

Já a  21ª edição do projeto Teatro Deodoro é o Maior Barato, que seria em 2020, teve de ser adiada, em comum acordo com os artistas. O calendário para as apresentações no palco ainda está sendo definido. Foi realizada uma edição especial online do TDMB com a exibição de 13 vídeos, entre música, teatro e dança, de artistas e grupos alagoanos selecionados no edital de 2020. Para ocupação do Complexo Cultural Teatro Deodoro, no período de novembro de 2021 a março de 2022, a Diteal lançou o Edital de artes visuais para selecionar quatro exposições.

Sheila Maluf explica que o processo de evolução é constante, mas já há o que comemorar. Segundo ela, ainda é cedo para avaliar o que permanecerá da experiência do digital.  A Diteal hoje conta com um acervo artístico-cultural virtual construído durante a pandemia de 39 produtos de grupos diversos, do teatro, dança, artes plásticas, grupos afros, cultura popular, diversidade de gêneros, etc.

O feedback do público no Canal do Youtube também é motivo de estimulo para a equipe que viu o canal pular de 100 para quase 1.300 o número de inscritos, desde que as ações iniciaram no ambiente digital. Outro ponto importante são as visitas guiadas as exposições virtuais, numa parceria entre arte e educação, com a participação de professores e alunos, mesmo com todos os desafios da pandemia, os encontros continuam acontecendo. A equipe na ocasião desta entrevista se preparava para o contato com os seguimentos artísticos e também no sentido de tranquilizar o público sobre todos os cuidados e treinamento que a equipe vem recebendo para o retorno gradual.

Sobre o Teatro Deodoro

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