Dossiê Fotografia Alagoana

Os olhares curiosos de Gabi Coêlho e Celso Brandão

Estreia da 2ª temporada do Dossiê Fotografia Alagoana

O Dossiê Fotografia Alagoana chega a sua segunda temporada com o objetivo de seguir contando e mostrando as histórias dos artistas e suas produções em Alagoas. Nesta primeira edição, o Blog Aqui Acolá conversou com Gabi Coêlho, jovem fotógrafa que vem desenvolvendo um trabalho intenso com autorretratos e Celso Brandão, consagrado artista da fotografia e do cinema alagoano documental e grande referência para a arte visual do Estado.

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Gabi Coêlho | Foto: Acervo pessoal da artista

Gabi Coêlho

Gabi Coêlho é maceioense e sua curiosidade para fotos veio desde pequena. Na adolescência, tinha uma câmera analógica enquanto seus amigos já utilizavam as digitais, e devido às dificuldades de operação como a procura por filmes e revelações deixou a fotografia de lado por um certo período. Fez faculdade, foi mãe, trabalhava até que comprou uma câmera digital e passou a tirar fotos das viagens que fazia.

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S/título | Foto: Gabi Coelho
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S/título | Foto: Gabi Coelho
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Ecdise | Foto: Gabi Coelho
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Cortejo Solitário para um amor dilacerado  | Foto: Gabi Coêlho
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Cortejo Solitário para um amor dilacerado | Foto: Gabi Coêlho
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Alegoria |Foto: Gabi Coêlho

“Eu sou muito curiosa, talvez até demais, e tenho a mania de ler muito sobre tudo o que vou fazer”, diz. “Então comecei a ler bastante sobre fotografia e fui gostando, até que resolvi me profissionalizar”. A necessidade também se deu porque já estava sendo chamada para realizar alguns trabalhos específicos. “Fiz alguns cursos fora, de modo online, e comecei a trabalhar com fotografia comercial – fotos de família, de parto”. Desde então, ela contabiliza 5 anos de produção visual própria.

No início de 2018 entrou para o curso de autorretrato conceitual com a professora carioca Jacqueline Hoofendy, o que causou um impacto muito grande em sua cabeça e em sua fotografia.

“Eu descobri uma Gabi que não sabia que existia, mas eu acho que era uma Gabi que devia ter existido sempre”, revela. Daí partiu o pontapé para que ela se debruçasse sobre a fotografia autoral, indo além dos autorretratos. Também passou a viajar para frequentar festivais e workshops de fotografia, visando trabalhar outras nuances e complementar às ideias de seu trabalho.

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Da Cor ao Caos | Foto: Gabi Coêlho
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Da Cor ao Caos | Foto: Gabi Coêlho
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Da Cor ao Caos | Foto: Gabi Coêlho

Mesmo com o passar do tempo, o olhar curioso de menina ainda perdura. “Quando vejo uma sequência de cores interessante ou alguém com um gestual mais peculiar me dá vontade de registrar. Eu fotografo quase tudo”, comenta Gabi. “Não sou muito dada à fotografia de rua, embora a faça também. Mas sinto como uma espécie de invasão do espaço do outro”. Ela acredita que sua timidez é refletida também em seus trabalhos. “Mesmo nas fotografias comerciais eu sou muito apegada a detalhes. Em fotos de família, por exemplo, o pessoal geralmente faz em ângulos mais abertos e as minhas fotos são muito focadas nos detalhes das cenas e das pessoas”.

Além disso, outra característica de seus trabalhos é o fato de não aparecerem muitos rostos, tanto nos autorretratos como nas demais fotografias. “Também gosto de utilizar a longa exposição, quando a câmera consegue captar mais movimentos do que o normal” afirma. “Com os autorretratos, se eu usasse meu rosto sempre, iria perder um pouco a originalidade. Então nesse tipo de trabalho, gosto de deixar a imagem meio turva, meio disfarçada”.

O preto e branco é outro fator determinante seu, embora ultimamente tenha experimentado cores de forma mais intensa e vibrante. “Geralmente no momento do clique eu já estou pensando em como a imagem vai ficar depois, se ela vai ser em preto e branco ou se vou explorar mais as cores, mas o processo de edição é tão visceral quanto o de captura”.

Admiradora dos profissionais da Magnum – histórica agência internacional de fotos fundada em 1947 por nomes como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson – e mais especialmente de Antoine D’Agata, fotógrafo francês dedicado a temas nebulosos como dependência química e prostituição, Gabi comenta que também se inspira nas pinturas de Francis Bacon. “Gosto dessa coisa da turbidez, da monstruosidade, do amorfo”. Ela também cita o italiano Roberto Kusterle e suas texturas de natureza na pele das pessoas. “É quase que clichê destacar o Celso Brandão, mas também é quase que obrigatório”, diz ela. “Karla Melanias e Renata Voss; gosto muito do trabalho de João Dionísio, do qual compartilho os cortes muito loucos nas imagens”, brinca.

Gabi Coêlho vem se dedicando a uma série que ela chamou de Angelus e é dedicada a seu filho. “Estou fotografando ele e está sendo uma experiência interessante essa de sair de mim e dos autorretratos para fotografar o outro, mesmo que esse outro seja também parte de mim”, reflete. Já a série Sequestro do Abandono tem como norte móveis encontrados por ela nas ruas. “Eu os trago para casa e me relaciono com eles como objeto cenográfico e depois descarto de novo”.

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Alastrada| Foto: Gabi Coêlho
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Alastrada| Foto: Gabi Coêlho
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Alastrada| Foto: Gabi Coêlho

Dentre as exposições coletivas que já participou, destacam-se a “Paraty em Foco” – festival internacional realizado no município fluminense; em Maceió o “Saca” (Salão de Arte Contemporânea), “Olhar Contemporâneo” na Galeria Gamma, no Fotosururu (encontro de fotografia criativa que aconteceu em abril deste ano), “Fotografando poesia” no Complexo Cultural do Teatro Deodoro e “Mosaico” no Maceió Shopping.

“Aqui na cidade por um lado você vê muita gente boa produzindo, com linguagens interessantes, mas por outro lado eu não vejo muita gente consumindo não só a fotografia, mas arte em geral”, pensa. “Acho que a gente é muito iniciante ainda e estamos passando por um período em que parece que isso vai regredir cada vez mais. Mas vai ressurgir”. Segundo ela em seus planos , além de continuar fotografando, está o fato de não ter grandes pretensões. “A não ser sair um pouco mais de mim e tentar ser mais reflexo da sociedade atual – gritar mais através da fotografia. Isso é um anseio”.

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Foto: Celso Brandão

Celso Brandão

Um dos fotógrafos e cineastas alagoanos mais conceituados nacional e internacionalmente, Celso Brandão nasceu em Maceió e o interesse pelas imagens despertou em sua vida antes da fotografia. “No jardim de infância estudei numa escola que era tida na época como experimental e lá comecei a mexer com pintura, escultura e foi um impacto muito grande”, relembra. “Criar imagens sempre guiou a minha vida”.

Ainda criança apaixonou-se pelo cinema ao frequentar com seu irmão o Cine Rex, na Pajuçara. “Já um tanto mais velho tentei um pouco da pintura, participei ainda do primeiro Festival de Verão de Marechal Deodoro na década de 1970, mas a fotografia eu tive o primeiro contato aos 13 anos”. Para ele, essa descoberta foi como um alívio, porque com a fotografia ele poderia produzir imagens sem as mãos. “Não tinha habilidade manual com a tinta”, revela.

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Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão

Ganhou uma máquina e numa viagem ao interior para passar o Natal na casa de sua avó, produziu seu primeiro filme. “A temática eu carrego desde sempre – pessoas anônimas”. Fez faculdade de Comunicação Visual em Recife e um tempo depois foi contratado pela Universidade Federal de Alagoas para trabalhar no Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore por conta de uma série de filmes super-8 de temática etnográfica que Celso já vinha produzindo de forma autodidata e exibindo no Festival de Cinema de Penedo, sendo premiado nos anos de 1975 até 1980. “Nessa época eu era louco por cinema, ia quase todos os dias e essa cultura estava introjetada em mim”.

Passou um tempo fora estudando, fez especialização em fotografia como instrumento de pesquisa nas Ciências Sociais na Universidade Cândido Mendes no Rio de Janeiro e começou a ensinar fotografia nos cursos de Comunicação e Arquitetura da Ufal, o qual fez durante 30 anos. “Meus estudos são muito baseado nos livros de fotografia, dou muita importância a eles. Livros com a obra dos artistas, o que me interessava mais”.

Durante sua trajetória, sempre alternou entre a imagem fixa da foto e o movimento do audiovisual. “A fotografia é um síntese, um instante. O cinema você dá chance a aquela cena se movimentar”. Segundo ele, suas imagens não são muito presas a temas e desde o começo deixava a força da aparência desenvolver suas produções. “Tudo o que me chamava a atenção eu clicava e eu tinha a ideia de que a medida que o acervo fosse crescendo, as fotografias iriam se encontrando. E isso aconteceu de fato”.

O preto e branco de seus trabalhos simbolizam a força da síntese entre as duas cores e remetam desde as gravuras antigas até as xilogravuras tão características da arte nordestina. “Os grandes mestres produziram em preto e branco e isso faz parte da história da foto”, revela. “Gosto muito da fotografia do século 19, como Félix Nadar, Eugène Atget. Tem também um fotógrafo alagoano do começo do século 20 muito importante, que registrou o movimento de reforma urbana no Rio de Janeiro conhecido como bota-abaixo, chamado Augusto Malta”.

2. Bonecos de Mamulengo
Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão
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Foto: Celso Brandão

Em seu currículo contabiliza mais de 16 exposições entre individuais e coletivas em cidades como Maceió, Penedo, Rio, São Paulo, Belém, Paris e Berlim. “Hoje em dia estou dando muita importância às publicações, porque as exposições passam e pouca gente usufrui”, diz ele. “Sei que agora dispomos do meio digital, mas eu como boa parcela da minha geração ainda não me rendi totalmente a esse mundo, eu resisti muito”.

Suas publicações vêm desde 1980, muitas delas dedicadas à cultura popular alagoana, os indivíduos que a representam e as suas obras. Seus dois últimos livros foram “Caixa Preta”, lançado em 2016, resultado da imersão de Celso nos interiores de Alagoas; e “Ilha do Ferro” de 2017, dedicado ao povoado que fica às margens do Rio São Francisco no município sertanejo de Pão de Açúcar.

Atualmente, Celso está dentro do time de fotógrafos imbuídos na Missão Rio São Francisco, documentada no site Territoire Sensible (territoiresensible.com), dirigido pelo fotógrafo francês Pierre Devin. “Mas isso não quer dizer que tenho uma postura diferente da que sempre tive, que é a de estar aberto a qualquer estímulo visual”, afirma.

“O cenário para a fotografia alagoana nunca esteve tão bem. Estão acontecendo várias mostras com premiações, como a Fundação Pierre Chalita que tem revelado um número incrível de fotógrafos. O Fotosururu, o Café e Foto, eles ajudaram a criar o ambiente para fomentar essa cultura”.

Celso Brandão é um artista sensível que sintetiza os registros de seu olhar curioso aliado às suas qualidades de documentarista, o que resulta num trabalho intenso, real e necessário para os lugares onde passa. “Quando saio com a câmera eu quero é ser surpreendido, ter a sorte de encontrar alguma coisa que acrescente ao que já venho fazendo, mas que também possa constituir um trabalho fechado”.


*Capa: Foto: Celso Brandão

Texto: Nicollas Serafim | Edição e Revisão: Iranei Barreto


Gabi Coêlho

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Celso Brandão 

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Celso Brandão

 

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