Percursos: Narrativas Poéticas da Cidade

Percursos #04 | Caoticidade Urbanopoética do eu nulo

A linguagem é um ser vivo. Ela “força a realidade a se manifestar, ela escava suas profundezas e traz à tona as situações fundamentais da condição humana, sejam elas grandiosas ou mesquinhas”. Assim a função poética, que é sempre subordinada à linguagem, estabelece no seu exercício a significação e a perversão da realidade.

Especialmente nestes poemas que foram gestados, inicialmente, para o recital “CaoticidadeUrbanoPoética do Eu Nulo” realizado pela Confraria: Nós, poetas em novembro de 2018 no Teatro Sesc – Centro, pensei em expor a poética que a urbe vomita, cospe e projeta através do seu complexo sistema, sem entrar no mérito de justo ou injusto, diuturnamente, aos nossos sentidos. Para alguns,esta poesia, homem/cidade – cidade/homem, passa despercebida. Mas, para o poeta, esta relação homem/cidade converte-se em um manancial de possibilidades inspiradoras.

Os poemas para o recital que contou com a participação de diferentes poetas foram construídos a partir da seguinte visão:

O Caos, para a mitologia,é o estado geral desordenado e apocalíptico, desconfigurado e desorientado das forças do universo que antecede a modelagem, sob a mão do não-DeusKaos.

A cidade refere-se a sua estrutura física composta de vielas, becos e avenidas, delimitada e subdividida, bela e decrépita ao mesmo tempo, central e marginal, harmoniosa para alguns e caótica para outros.

O urbano refere-se a tudo aquilo que está delimitado pelas limitações geográficas da urbe. Ou seja, tudo o que se limitar ao espaço demográfico da cidade estará circunscrito no conceito de urbanidade.

A poética refere-se ao ambiente não-físico (composição involuntária de elementos pictóricos locais – sua realidade), que somado ao contexto realidade em sua significância e significação, compõem um espaço/tempo favorável à criação do poeta.

O Eu nulo refere-se ao ser, ou melhor, ao não ser, ainda, o homem, o centro da visão do complexo sistema urbano. Dentro do proposto, o homem será meramente coadjuvante nestes trabalhos onde a temática é a cidade que com voz ativa “fala” por si, solta seu grito de necessidade, de ódio, de revolta, de agonia, de desespero, e nós, humanos, estaremos apenas “en passant”.

Nestes trabalhos procura-se expor, dissecar, autopsiar de forma ácida, sarcástica, visceral, imoral, cruel, harmônica sem ser idílica, as dores da cidade, o ódio, a revolta, a agonia, o desespero, dela, cidade – enquanto ser pulsante, volátil, feroz e às vezes doce; e de nós humanos – enquanto impotentes, perante a grandiosidade monstruosa e ao mesmo tempo fraterna da cidade, que a completamos e ao mesmo tempo somos subjugados por ela. E não tenhamos medo de expor a carne, joguemo-la aos abutres.

A partir daí de onde teorizamos a cidade? Dos arranha-céus, das janelas dos ônibus, das janelas fechadas dos carros, das fotos que tiramos, das gôndolas dos supermercados, das filas dos bancos e das “múltiplas redes, deslocamentos e conflitos que dão vida ao intricado movimento das cidades”.

Ela, cidade, é “cartográfica, reta, não pensa o sujeito que a habita”, mas nela, apesar de ser inanimada, é ser pulsante e determinante do eu – humano -, nesse contexto, anulado, pela força determinante da polis (cidade enquanto estrutura planejada, pensada), consubstanciada por políticas públicas que não pensam a cidade como sujeito, mas o sujeito como cidade, equivocadamente.

A partir disso, entendemos que a poética é multifacetada e criada a partir de si mesma, a partir da visão dos “eus” em sua relação consigo mesmo e com os “tus” compartilhando das rotas traçadas nos espaços urbanos e suburbanos das cidades, e também, criando novas teias a partir das existentes. E o poeta com sua verve idiossincrática inquieta e crítica, espelha a cidade a partir de sua percepção, do seu eu, de sua crítica, abrindo um leque, tanto para o lado subjetivo quanto para o prático (sujeira urbana, caos urbano, caos humano, caos político) dentre outros tantos assuntos.

POEMAS


 

SURURU FRESCO
Sururu fresco
Sururu fresco

Chafurda a lama
Mexe, tira
Descasca e canta
Olha o sururu
Sururu fresco

Da lagoa
Empobrecida
Na canoa
Sem camisa
Prá fazer o pão
Com sururu fresco

Na favela
Embrutecida
Vida!
Vida fudida
Prá pescar o sururu

Sururu Fresco

Mergulha na lagoa
Se mela, se lambuza
Enfia a mão no chão
Prá pescar na lama

Sururu Fresco
Sururu Fresco


 

BEIRA DA LAGOA

Tem caranguejo?
Tem não, moço.
Oxe! Por quê?
Mataru o mangue. Mataru o mangue.

Ponta Grossa
Rio Novo
Bebedouro
Pontal

Solta a canoa
Dança o coco
Canta a toada

Ô menina bonita, cadê seu pai?
Foi pescá seu moço. Foi pescá

Bom Parto
Fernão Velho
Levada
Pontal

Ô menina dengosa. Cadê seu pai?
Tá na lagoa. Tá na bera da lagoa.
Vergel
Trapiche
Mutange
Pontal
Ô menina cherosa. Cadê seu pai?
Foi pesca sururu na bera da lagoa

Cadê a lama, cadê o cheiro
Tá na lagoa, tá na lagoa
Cadê o cheiro, cadê a lama
Tá na lagoa
Tá na lagoa
Tem caranguejo?
Tem não, moço.
Oxe! Por quê?
Mataru o mangue. Mataru o mangue.

Ponta Grossa
Rio Novo
Bebedouro
Pontal

Solta a canoa
Dança o coco
Canta a toada

Ô menina bonita, cadê seu pai?
Foi pescá seu moço. Foi pescá

Bom Parto
Fernão Velho
Levada
Pontal

Ô menina dengosa. Cadê seu pai?
Tá na lagoa. Tá na bera da lagoa.
Vergel
Trapiche
Mutange
Pontal
Ô menina cherosa. Cadê seu pai?
Foi pesca sururu na bera da lagoa

Cadê a lama, cadê o cheiro
Tá na lagoa, tá na lagoa
Cadê o cheiro, cadê a lama
Tá na lagoa
Tá nalagoa


 

EXAURIDA A FONTE, LEITO, LAMA, FETIDEZ
Esse rio?
Acho fétido
De águas lodosas
E entranhas abertas
Tem seu útero maculado
E frutos mutilados não
Eclodem mais dali

Da lama negra
Borbulhas agoniadas – natimortas –
Peçonha nefasta
Que mata
Emergem combalidas
Ainda sobrevive?
Ou já é
Morto, inválido

Da ponte
Observa a vida
A ferida ao léu exposta
E vertem lágrimas insosas
De uma dor pérfida
Mentirosa

No leito em morte
Em decúbito dorsal
Abraça ao céu
Beija-lhe a face
Por erros que seus
Não são, e sim
De humana feição
Pede-lhe perdão

Do mar conspurcado
O torso é lambido
Por língua negra
Fedida

Na beirada
Minguada vegetação – paisagem?
Compõe esquálida
Um quadro pobre

Dejetos vomitados
Cuspidos, escarrados
Pela urbe – eu –
Emporcalham o leito
Em decúbito
Mortal

O hipogeu ao léu
Parido de mundana tribo
Abriga sem orbes ou recamos
O cenotáfio da bejarrice
Urbana

* cântico de morte do Riacho Salgadinho


 

A DECRÉPITA URBANICIDADE APREME DESPÓTICA O EU (NULO)        

Da janela de um ônibus qualquer
Enquanto o casario dorme sob
O porre da noite anterior
Observo o digladio mortal
Entre vidas assemelhadas
Garis e urubus chafurdam
Na praia da avenida
Em meio ao lodaçal
Criado a partir da podridão
Urbanocaótica
Da urbanocaótica miséria

O Salgadinho fede
Nem as putas aguentam mais

Descambo do ônibus
Na Sinimbu – sitiada
E escarro minha revolta
Em suas pedras
Percorrendo lentamente
Os trilhos urbanotortos
De minhas tortuosas vias
Povoada de vermes
Sorrateiros e usurpadores
Advindos da onisciente
Mídia do caos

Quero o prazer mundano
Mesmo que seja o da monte pio

Robotizado
Enclausuro-me – hipocritamente aliviado –
Em meu birô, nos braços da inércia
Como minha rapariga

E o salgadinho… Nem as putas…


 

André Maurício

Este alagoano de São José da Tapera, nascido em 1966, radicado em Maceió, é maravilhado com a escrita e encantado com as letras. Procura traduzir em seu trabalho as inquietações da alma de um humano preocupado com o humano em suas relações pessoais. Entende, também, que a eternidade de um poeta está em o mesmo perder sua alma em favor do seu leitor.

Coautor do livro Nós, Poetas lançado em 2015, participações nos recitais literários do SESC de 2015, 2016, 2017 e 2018; participações na VI e VII Flimar – Feira Literária de Marechal Deodoro; Recital literário da SEGESP; Mostra fotográfica Poesia em Foco do DITEAL – Teatro Deodoro; Mostra fotográfica Poesia em Foco do HU; Recital da ALMAGIS; Alvorada poética na VI e VII Flimar; participação no Recital na Praça promovido pela Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos; Recital na Bienal Internacional do Livro em AL – 2015; participação no Show do Nó na Garganta – 2016.

Publica seus textos e poemas no blog que mantem intitulado poetiquamente , na página do facebook da confraria – confraria: Nós, Poetas, e no site escritoresalagoanos .

 

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