Arte Popular Artesanato

Bordados do Norte

O Litoral Norte é terreno e tecido fértil para a construção da identidade alagoana. Seja pelas praias e cidades históricas, pela cultura da pesca ou pela culinária com as tradicionais boleiras e doceiras. No entanto, outra manifestação do povo está se alinhavando na colcha de retalhos da cultura local – o bordado. Através do Coletivo Bordazul, mulheres bordadeiras da região de Riacho Doce vêm criando e expandindo linhas e horizontes com suas próprias mãos talentosas.

Através de oficinas de bordado que aconteceram em 2013 e 2014 compondo o Projeto Conversando Sobre Saúde promovido pelo Sesc Alagoas, as integrantes do Coletivo foram se conhecendo. “Para a realização das oficinas, a assistente social da instituição, Mabel Araújo, convidou Gianinna Bernardes e Lúcia Galvão que são pesquisadoras na arte do bordado e desenvolveram uma metodologia muito específica fundamentada na literatura, nas rodas de conversa, na valorização da história pessoal e do potencial criativo de cada participante”, relata Kelcy Ferreira, analista em artes visuais do Sesc Alagoas. “O processo de investigação é pontilhado pelo afeto, pelo desenho autoral e pelo bordado livre”.

Kelcy foi convidada a conhecer o trabalho das bordadeiras e se encantou com a história das mulheres do Litoral Norte de Maceió. Tanto que ela mesma convidou o grupo a participar de uma exposição em janeiro de 2015 chamada Tesouros Bordados. “Desde então, tenho acompanhado o grupo. Das 30 participantes iniciais das oficinas e da exposição, permaneceram 24 mulheres entre 32 e 71 anos que formam hoje o Bordazul”, comenta.

BORDAZUL (1)
Foto: Acervo do Coletivo Bordazul

Bordazul foi um nome escolhido coletivamente, relacionando o bordado com o azul forte e característico da região do litoral maceioense.  Desde 2016 enquanto coletivo, o grupo se reúne semanalmente, nas tardes de segunda no Sesc Guaxuma. Há momentos de estudos sobre artistas contemporâneos atuantes em Alagoas e da arte brasileira.

“A condução dos estudos e experimentações é realizada por Gianinna Bernardes, que é bordadeira, educadora e escritora”. Kelcy Ferreira conta que elaborou o projeto Diálogos em Artes Visuais que prevê formação continuada, visitas a espaços culturais, encontros de imersão e intercâmbio com as bordadeiras, a exemplo da vinda do tecelão Renato Imbroisi (SP) para Maceió, estando em dois momentos com o grupo em 2018.

blog aqui acolá - coletivo bordazul (28)
Foto: Acervo do Coletivo Bordazul

Além disso, outro momento importante este ano para o Coletivo foi a participação das bordadeiras Maria José (Zezé), Waldeci (Tita) e Maura na Exposição Bordados Poéticos no Rio de Janeiro em outubro deste ano. A viagem aconteceu como resultado de um convite para um intercâmbio com o Coletivo Bordadeiras Poéticas da cidade de Paraty, que desde 2011 promove um concurso e uma mostra de bordados no Sesc local.

Além de bordadeira, Zezé é mestre de cantigas populares e levou seu canto característico para representar a cultura alagoana no Rio de Janeiro. Maura apresentou seu talento culinário para doces e bolos típicos de Alagoas e Tita foi a comunicadora do Coletivo, realizando mediações, compartilhando sobre os processos de criação e elaboração dos cartões postais bordados”.

Apresentação da dança baianas de Alagoas
Foto: Acervo do Coletivo Bordazul
Roda de Conversa entre os Coletivos sobre bordado
Foto: Acervo do Coletivo Bordazul
BORDAZUL (2)
Foto: Acervo do Coletivo Bordazul
blog aqui acolá - coletivo bordazul (31)
Foto: Acervo do Coletivo Bordazul

O intercâmbio se deu através de uma ação proposta pelo Coletivo de Paraty em que cada grupo apresentava o seu lugar para o outro, através da troca de postais bordados. O processo de criação dos postais foi mediado por Gianinna Bernardes em Maceió e Nina Silva em Paraty.

“A decisão foi fotografar um recanto dos bairros onde moram (entre Guaxuma até Ipioca) lugares importantes em sua história de vida e em seguida bordar detalhes com afeto e um colorido particular, expressão genuína de cada integrante do Bordazul”, afirma Kelcy.

“Neste ano, o tema da Mostra Bordados Poéticos é Territórios, cartografias e caminhos partilhados, e possui sintonia nessa troca de postais entre os grupos dos dois territórios, compartilhando caminhos e cartografias de afeto”.

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Para as bordadeiras, a alegria em participar da exposição foi muito grande. “Eu tô muito emocionada em ver os nossos postais aqui! Essas fotos são naturais… este postal é o meu – eu fotografei o ouriço e esses são os das minhas amigas”, disse Tita mostrando os postais ao público e apresentando os trabalhos das amigas. “Essa exposição é para a gente entender que tem que se dedicar muito mais”, revelou Maura. “Eu fotografei o lugar onde eu morava na antiga Rua da Praia em Riacho Doce, todas as casas o mar já carregou… agora tá tudo diferente!”, desabafou Zezé.

Para Kelcy esse intercâmbio representa o reconhecimento da consistência de um trabalho que é de natureza integrada e multidisciplinar. “É o envolvimento da Comunidade com a Instituição que criou um programa de aproximação com a população do entorno e a mesma vem correspondendo às expectativas, participando, colaborando e oportunizando a troca de saberes”.


Facebook |facebook.com/bordazul

1 comentário

  1. Parabéns!! Lindas BORDADEIRAS, contadores de estória e histórias de vida.. Cantando e dançando com MUITO AFETO. VIVAS BORDAZUL 😘😘😘😘😘❤❤❤❤❤❤❤❤

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