Artes intervenção Aqui Acolá

As várias vidas de Myrna Maracajá

De origem tupi, Maracajá significa gato do mato ou gato selvagem. Coincidentemente, ou questão de destino, a vida de Myrna aglutinou todas as essências e significados de seu nome. Nascida em Timbaúba, zona da mata de Pernambuco, ela direcionou sua vida através de suas mãos – com sua arte, e seus pés – pelas andanças que fez pelo Brasil. Sua trajetória artística se divide em muitas vidas – ilustração de livros infantis, cultura popular e indígena, entalhe em madeira, pintura em quadros, paredes, instalações, arte sustentável e professora. Ela é a artista especial deste mês e conversou sobre tudo isso com o blog Aqui Acolá.

BLOG AQUI ACOLÁ - MYRNA MARACAJÁ - FOTO CINCO ANOS DA ARTISTA MYRNA MARACAJÁ
A artista Myrna Maracajá com 05 anos de idade | Foto: Acervo da artista

O artesanato e a arte já eram comuns na vida da família de Myrna quando ela veio ao mundo. “Na minha cultura, a arte estava lá o tempo todo. Minha avó era costureira, meu avó sapateiro e tinha um ateliê”, lembra ela. “Mas acho que o veículo que possibilitou meu acesso à arte foi a literatura – a coisa de contar histórias, que também passa pelo cordel”.

Quando descobriu que era disléxica, Myrna foi incentivada pelos pais e pelo colégio onde estudava para fazer cursos de arte. “Não tem um dia que eu não produza arte, porque é a minha fala”. Com 11 anos, ela começou a oferecer aos colegas de escola uma forma de traduzir as imagens, sonhos e poesias com seus desenhos. “Ganhava muito dinheiro nas feiras de ciências produzindo os cartazes que o pessoal não sabia desenhar”, relembra.

Tenho influência do Henfil, da Mafalda, Millôr Fernandes, essa coisa do chargista. Também tive a fase de fazer meus artesanatos e sair pra vender na rua, com uma mochilinha”, relembra.

Na adolescência vinha passar férias em Maceió, na casa de uma tia no bairro do Feitosa. “A gente se divertia muito, ia pras praias e tal, mas eu queria conhecer mais da cultura daqui, como eu tinha contato lá em Recife”. E foi essa curiosidade não saciada que, aos 20 e poucos anos, ela resolveu aportar em Maceió. “Foi na época do Manguebeat, aquela coisa de ‘Recife fede, a 4ª pior cidade do mundo pra se viver’. Então fui com uma amiga passar um tempo no Pontal”. Nessa época trabalhou no projeto Natureza Que Não É Morta, que pesquisava o que a natureza descartava e o que a população consumia e descartava também.

Ceia do Presidente Lula Maracatu - Caboclos de lança II, (2008)
Ceia do Presidente Lula Maracatu – Caboclos de lança II, (2008)
BLOG AQUI ACOLÁ - MYRNA MARACAJÁ - SERRESTEIROS DA PITANGUINHA
Ilustração para o XIV Baile dos Seresteiros da Pitanguinha – “Alagoando – 200 anos de arte, cultura e carnacal” (2017) |

Ao mesmo tempo, o desejo de conhecer a cultura maceioense foi se revelando e realizando através de seus trabalhos. “Quando teve a intervenção do Sesc aqui em Maceió, eles compraram todo esse acervo porque eles também estavam interessado nos artistas que retratavam a cultura local”. Segundo ela, sua forma de construir é muito ligada ao povo. A cultura popular é presença marcante em seu trabalho.

Pelo fato de sempre estar produzindo e experimentando, Myrna foi ganhando outros horizontes. Conheceu a escritora alagoana Regina Célia Barbosa e começou a trabalhar com ilustração. “A partir daí começamos um trabalho de veiculação, fiz muitos adesivos pra Secretaria de Saúde, exposição, livros e jornais”.

Myrna teve várias fases em sua vida, já trabalhou com papel, sucata, lata, ferro, entalhe, dentre outros. Seu traço de releitura de cordel é uma das suas características mais marcantes. “Fiz um muro retratando um desfile do Pinto da Madrugada nesse estilo, é o meu trabalho mais extenso – tem 43 metros e fica no muro do Porto de Maceió”. Além disso, sempre ministra oficinas para transmitir não só seu conhecimento sobre arte, como também sobre relações humanas. “Minha atenção está muito mais no ser do que na técnica”, revela. Para ela, o objetivo não é o produto final, mas o caminho percorrido na viagem.

BLOG AQUI ACOLÁ - MYRNA MARACAJÁ - IARAGUA TEMATICO_PINTURA NA SÁ ALGUQUERQUE_2004
Jaraguá Temático Pintura na Sá Albuquerque (2004) | Foto: Acervo da artista

Atualmente a sustentabilidade é uma das questões mais presentes em sua mente e em seu processo criativo. Seu ateliê no bairro do Poço em Maceió também abriga suas oficinas, seu acervo e a loja onde comercializa suas criações.

“Tenho investido em alguns produtos baseados no artesanato e pesquisado muito essa coisa da sucata. Acredito que revela muito do Brasil que estamos vivendo”.

Arteira e ágil como um gato, Myrna Maracajá vai desviando dos percalços e obstáculos que encontra pelo caminho com simplicidade. Alguns problemas de saúde a mantiveram reclusa e impedida de produzir obras mais volumosas. Porém, sua sabedoria e desejo criativo continuam a impulsionando para o próximo pulo, sempre amparada por suas muitas vidas criativas.

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Intervenção 

 “Quando pensei no nome, eu imaginei uma coisa bem visual e de movimento”, diz ela sobre a sua intervenção na logomarca do Aqui Acolá.  “A ilustração é digital. São traços recortados que parecem uma gravura. O tema fala da tolerância às diferenças, o quanto é necessário conviver e se reconstruir com ela, quando  cruza sua vida. A abençoada diferença que nos faz ser tão únicos e ao mesmo  tempo mais fortes quando respeitamos uns aos outros. É  nela que nos apercebemos  incluídos numa  democracia para todos”, explica.

BLOG AQUI ACOLÁ - INTERVENÇÃO MYRNA MARACAJÁ


Facebook:ateliemyrnamaracaja   | Instagram: @myrna_maracaja e @produtos_maracaja

Site: http://myrnamaracaja.wixsite.com/myrna

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