Disco Novo! Música

Pelas lentes de Elisa

 

Elisa Lemos é uma explosão prestes a te arrebatar delicadamente, como uma brisa quente em dias de inverno. Há um certo traço de deslocamento nas canções dessa baiana de nascimento e alagoana de coração, o que é extremamente positivo, pois a destaca da multidão automatizada e sem sal do mercado musical: Elisa tem um universo dela, e te convida a conhecê-lo. Se eu puder te dar um conselho, ele é “não perca essa oportunidade”.

Blog Aqui Acolá - Elisa Lemos - foto de Woulthamberg rodrigues4 (5)

O mundo de Elisa é profundo e cheio de nuances. Em seu primeiro disco, Grande angular, ela revela sua verve entre a MPB e o Rock, apresentando um repertório bem escolhido – com composições próprias, parcerias e canções de outros compositores – em arranjos que dialogam equilibradamente com elementos eletrônicos, efeitos sonoros e instrumentos orgânicos. Soa novo, criativo, sem descuidar do acento acessível do Pop; é inteligente, sem a pretensão de soar rebuscado.

O nome do disco, título de uma das faixas, ilustra bem o filtro pelo qual Elisa apresenta sua obra: tal qual uma lente grande angular, ela brinca com a perspectiva, criando imagens que soam maiores e mais impressionantes. Consegue enquadrar diversos sentimentos em interpretações diretas, sem qualquer firula desnecessária ou excesso vocal, revelando ao ouvinte a sua verdade crua, mas bem acabada.

Filha do guitarrista Toni Augusto, um dos mais requisitados músicos do cenário alagoano, Elisa Lemos cresceu e construiu sua linguagem artística em um ambiente repleto de informação musical, na convivência com os mais diversos estilos e artistas. Soube absorver todos esses dados sem transformar a sua música numa colcha desconexa de retalhos, imprimindo sua personalidade nas canções de forma coesa, transformando cada pedaço do disco, e dos shows, numa parte nova e cheia de sentido da sua obra. Essa é mais uma qualidade de Grande angular: o disco não soa redundante em nenhum momento, ao mesmo tempo em que as dez faixas não deixam esquecer que fazem parte de um mesmo universo.

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Foto: Wouthamberg Rodrigues

Abrindo com a canção que dá nome ao disco, composição deste que escreve, Grande angular anuncia o amplo espectro de Elisa, cuja arte merece ser contemplada, desvendada aos poucos, em suas diversas camadas. Sua faceta intérprete mostra uma Elisa que sabe imprimir sua marca no repertório de outros artistas, ecoando sua leitura de forma tão distinta que as canções parecem ter saído da sua própria mente. É o que acontece com a romântica de ares latinos “Seu Perdão” e a balada rock “Dias de calor”, ambas da autoria do cantor alagoano Junior Almeida, amigo antigo de família que a escutou cantando despretensiosamente num almoço de domingo e a incentivou a abraçar a música como carreira.

Em “Arrastada”, da sergipana Patrícia Polayne, Elisa toma o ritmo originalmente marcado pelo pandeiro e lhe dá roupagem de bateria, baixo e guitarra, levemente mais arrastada e urbana. Sobre a cidade, “Conformópolis”, canção do saudoso compositor paulista Valdir Dafonseca conhecida na voz do imorrível Di Melo, é uma descrição desiludida do dia a dia nas metrópoles, de uma tristeza e beleza monocromática traduzidas com competência na interpretação da cantora.

Em parceria com Bruno Berle, da banda Troco em Bala, Elisa traz à luz duas composições neste disco: “Espelho” e “Quimera”, sofisticadas, com melodias que valorizam toda a tessitura vocal da cantora e apresentam algumas cartas na manga, como variações rítmicas mais dançantes.

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Foto: Wouthamberg Rodrigues

Ainda em sua faceta compositora, desta vez sozinha, Elisa brinda o público com três pérolas: “Holi”, com timbres e melodias etéreas, um delicado convite em ritmo de valsa para mergulhar nas cores de sua música; “Teletransporte”, encantador desabafo sobre a saudade e a espera do ser amado, com a elegância de acordes dissonantes no melhor estilo bossa nova e ares leves; e “Tanto nada”, mais densa, de arranjo tenso, marcada pela guitarra e pelos timbres eletrônicos, versa sobre a desilusão, que também faz brotar asas e a vontade de voar. Um belo voo de estreia.

Certamente, todas as canções do disco funcionam individualmente, mas a experiência de ouvi-las em contexto, em conjunto, revela-se bastante interessante e aconselhável, pois possibilita uma visão mais apurada das coisas pela lente grande angular de Elisa Lemos. É possível se encantar com a voz e a delicadeza das interpretações, com o tempero Rock bem dosado das canções, com o conjunto das letras, com as ideias dos arranjos, com o deslocamento de Elisa.

Sim, ela tem algo somente dela, não copiado, que dialoga com aquilo que o ouvinte também tem de original e destacado do mundo. Esse, talvez, seja o grande trunfo de Elisa, ela fala de um lugar particular e, ao mesmo tempo, familiar a todos nós. E se você olhar através da sua lente, provavelmente irá se conectar com a sua música. E por falar em conexão, Grande angular já está na rede. Quem quiser, pode conferir o disco nas principais plataformas de streaming, como Spotify, Deezer, iTunes, Google Play Music.

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Foto: Wouthamberg Rodrigues

Ao vivo, o repertório amplia seu alcance com a performance de Elisa. Foi assim no show de lançamento do disco, dentro da programação do projeto Teatro Deodoro é o Maior Barato. A cantora encantou um numeroso público e foi aplaudida de pé, com direito a pedido de bis, um claro sinal de que a experiência da apresentação foi exitosa. Acompanhada pelo competente e entrosado time de músicos que também a acompanha no disco – Toni Augusto (guitarras e programações), Allysson Paz (bateria) e Anderson Silva (baixo) –, Elisa apresentou, além das canções de Grande angular, algumas de suas referências musicais, como uma “Bem-te-vi”, de Renato Terra, em uma versão voz e Violão, somente pai e filha: mais intimista impossível. Um show que tem tudo para encantar o público por onde quer que passe.

 


*Texto do jornalista e músico Diogo Braz  | Foto: Wouthamberg Rodrigues

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