Anadeje Morais: Rainha da Herança Cultural da Mestra Vitória


Nome: Anadeje Morais da Silva

Conhecido como: Anadeje

Atividade reconhecida: Rainha e coordenadora de guerreiro

Local e Data de Nascimento: Matriz do Camaragibe – 25/09/1955

Local de atuação: Maceió

Patrimônio Vivi de Alagoas: 03/08/ 2011

Falecimento: 2 /03/ 2023 (Aos 67 anos)

Foto: Da internet

Herdeira direta da Mestra Vitória, uma das mais emblemáticas figuras do guerreiro alagoano, Anadeje Morais cresceu envolta pelos cantos, espadas e chapéus cintilantes desse folguedo. Desde cedo assumiu o compromisso de preservar a tradição criada pela mãe, transformando o legado familiar em caminho próprio. O Guerreiro Leão Devorador, fundado por Vitória ao lado de Jayme de Oliveira, tornou-se o território onde Anadeje construiu sua história, primeiro como Rainha e Lira, depois como guardiã da memória e coordenadora do grupo.

Anadeje Morais da Silva nasceu em Matriz do Camaragibe, no dia 25 de setembro de 1955, filha de José Antônio de Morais e de Maria Vitória da Silva. Desde muito pequena, acompanhava a mãe nas apresentações de guerreiro. Contava que, aos quatro anos, já dançava no grupo do mestre Jorge Ferreira, na Chã da Jaqueira, depois no Vencedor Alagoano, de Juvenal Leonardo, quando o grupo ainda se apresentava no Vergel do Lago, além do guerreiro do mestre Adelmo, em Rio Largo, e no da Branca de Atalaia. Cresceu levada pela mãe, que também era brincante, mergulhada nas cores e movimentos dessa tradição.

Foto: Da internet
Foto: Da internet

Quando Vitória criou, junto a Jayme de Oliveira, o famoso guerreiro Leão Devorador, no bairro da Chã da Jaqueira, Anadeje passou a integrar o grupo de forma definitiva. Tornou-se Rainha e Lira, papéis que desempenhava com brilho. Depois do falecimento da mãe, em 2008, assumiu a responsabilidade de conduzir ensaios e apresentações, lutando para manter vivo o legado herdado. Recebeu, em 2011, o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, reconhecimento ao trabalho e à persistência diante das dificuldades para sustentar o folguedo. “Com a chegada desse incentivo, poderei continuar com o guerreiro. Estava ficando difícil, pensei várias vezes em desistir, mas com o primeiro pagamento, providenciarei novas roupas e restaurarei as representações”, dizia na época, esperançosa.

O Guerreiro Leão Devorador, fundado em 1988, tinha como marca a beleza dos chapéus em forma de igrejas, ornados com fitas, espelhos, lantejoulas e miçangas. Personagens como a Lira, o Índio Peri, as Estrelas de Ouro e do Norte, reis, rainhas e embaixadores enchiam de brilho o espetáculo que unia canto, dança e a tradicional luta de espadas. Os figurinos lembravam a nobreza das antigas cortes, com calções, meias brancas e vestidos cheios de cores e adornos. No intervalo entre a reza do divino e a batalha simbólica, a cena ganhava força e beleza, convidando o público a mergulhar no universo encantado do guerreiro.

Carlos Alberto, filho de Anadeje, guarda lembranças que atravessam gerações. Ele recorda que cresceu dentro do folguedo, vendo a mãe evoluir no grupo criado pela avó. “Quando minha mãe começou no Guerreiro eu nem era nascido ainda, depois deu uma parada e quando a gente veio embora pra Maceió era 1996, foi quando ela começou a brincar com minha vó mestra Vitória. Minha vó que já repassou o conhecimento pra minha mãe. Ela começou dançando como caboclinha, igual eu. Era uma coisa incrível crescer dentro do Guerreiro, hoje não temos mais, sinto muita falta, mas era bom. Era uma alegria quando a gente viajava pelos interiores, fazíamos muitas festas.

Foto: Acervo da Asfopal

O filho lembra também das dificuldades enfrentadas pela mãe para manter o grupo após a morte da mestra Vitória. “Quando Deus levou minha vó, o Guerreiro Leão Devorador ficou a cargo de minha mãe, mas durou uns poucos anos, porque quando a vó faleceu, minha mãe já não conseguiu continuar com as apresentações. O mais difícil para manter o Guerreiro eram os figurantes. Faltavam muitos, as pessoas não queriam mais. No tempo da minha vó a gente viajava, mas com minha mãe era só na capital mesmo. ”

Mesmo antes de adoecer, Anadeje já sentia o peso de levar adiante o folguedo diante do desinteresse dos mais jovens e da falta de novos mestres para cantar ou tocar. O grupo, que já reunira cerca de 30 brincantes de idades variadas, foi perdendo integrantes até que as apresentações se tornaram cada vez mais raras. “A última vez que a gente se apresentou, se não me engano, foi lá no Centro, no calçadão do comércio”, recorda Carlos. Depois disso, o Leão Devorador encerrou suas atividades. Entre os poucos objetos preservados, ficaram os chapéus e coroas que simbolizavam a realeza de Vitória e de Anadeje.

O último desejo de minha mãe foi ser enterrada como rainha e eu consegui realizá-lo, deixei ela linda e maravilhosa e fizemos o sepultamento dela. Os mestres também cantaram e fizeram uma homenagem no dia do velório. ”

Carlos Alberto, filho de Anadeje

Mestra Anadeje Morais faleceu em 2 de março de 2023, aos 67 anos, deixando um legado que atravessa a memória de sua comunidade e a história do Guerreiro em Alagoas. Foi homenageada por mestres e companheiros de folguedo, que reconheceram o valor de sua trajetória. A ASFOPAL destacou, em nota, que sua partida representava a perda de mais uma guardiã da tradição. A Secretaria de Estado da Cultura lamentou o “vazio irreparável na cultura alagoana”.

Foto: Da internet

A vida de Anadeje foi dedicada à transmissão do conhecimento herdado da mestra Vitória, mantendo viva a dança que mistura fé, história e beleza. Mesmo diante das dificuldades, ela soube honrar o título de Patrimônio Vivo, preservando, até onde pôde, o Guerreiro Leão Devorador. A sua presença permanece nas memórias daqueles que compartilharam com ela o palco, as viagens, as lutas de espadas e o brilho dos chapéus, lembrando que o guerreiro não é apenas um folguedo, mas um elo entre gerações.


Galeria de Imagens – Entrevista


Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

Publicações encontradas
Anadeje Morais
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2011/607-anadeje-morais
Alagoas perde a mestra Anadeje Morais, patrimônio vivo da cultura
https://www.gazetaweb.com/noticias/cultura/alagoas-perdeu-patrimonio-vivo-da-cultura-nessa-sexta-feira-2
Luto: morre mestra Anadeje Morais, Patrimônio Vivo de Alagoas
https://www.alagoas24horas.com.br/1521868/luto-morre-mestra-anadeje-morais-patrimonio-vivo-de-alagoas/
Anadeje Morais perpetua a tradição do guerreiro Leão Devorador
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2011/08/17/anadeje-morais-perpetua-a-tradicao-do-guerreiro-leao-devorador
Anadeje Morais perpetua a tradição do guerreiro Leão Devorador
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2011/08/17/anadeje-morais-perpetua-a-tradicao-do-guerreiro-leao-devorador
Falece a Mestra Anadeje Morais, considerada Patrimônio Vivo de Alagoas
https://radiosampaio.com.br/falece-a-mestra-anadeje-morais-considerada-patrimonio-vivo-de-alagoas/
Mestra Anadeje Morais, Patrimônio Vivo de Alagoas, morre aos 67 anos
https://oalagoano.com.br/noticias/2023/06/03/1961-mestra-anadeje-morais-patrimanio-vivo-de-alagoas-morre-aos-67-anos
Ícones da cultura popular recebem certificado de Patrimônio Vivo Alagoano
https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2011/08/icones-da-cultura-popular-recebem-certificado-de-patrimonio-vivo-alagoano
Mestra Anadeje Morais, patrimônio vivo da cultura alagoana, morre após internação
https://www.jaenoticia.com.br/noticias/2023/06/03/110239-mestra-anadeje-morais-patrimonio-vivo-da-cultura-alagoana-morre-apos-internacao
Festa da cultura: mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas recebem título nesta quarta
https://aquiacontece.com.br/festa-da-cultura-mestres-do-patrimonio-vivo-de-alagoas-recebem-titulo-nesta-quarta/
NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL, 2010. Pag 72

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Asfopal e Acervo da Família


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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