Artes Exposições

O ecossistema criativo exposto no Jardim de Eva Cavalcante 

Lançada no dia 20 de setembro, a exposição Jardim de Eva convidou o público a ingressar na fauna e flora artísticas de Eva Cavalcante. Ocupando os dois andares do Complexo Cultural do Teatro Deodoro, no Centro de Maceió, as 60 obras expostas entre pinturas, esculturas e fotografias se diversificaram como plantas, árvores e bichos que se espalham por todo o espaço de seu jardim criativo e visual.  

Alagoana de Maceió, Eva Cavalcante se embrenhou mais fundo no mundo da pintura, contudo, no Rio de Janeiro ao frequentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. “Gostava de desenhar desde criança, mas eu queria avançar um pouco mais nesse quesito. Aí procurei a escola e o curso que estava disponível era Iniciação à Pintura, o que para mim foi perfeito”, lembra ela. Logo após o término, ingressou em outro curso chamado Pintura como Objeto e, a partir dos desafios desse novo mundo que se abria, seu trabalho criativo e autoral começou propriamente a aflorar. 

A exposição teve a curadoria das experientes e talentosas Milla Pasan e Alice Barros e contou ainda com o projeto gráfico de Alisson Almeida e a montagem de Robertson Dorta junto com as curadoras. A mostra ficou em cartaz até o dia 21 de outubro. “A exposição Jardim de Eva é fruto, amadurecido pelo tempo de observação, experimentações poético-visuais, gestuais, cromáticas e têxteis, extraídas como açoites à tela nua, em branco luminoso”, expõe Alice Barros.  

Eva revela ainda que, junto do desenho e da pintura, a experiência com a madeira também sempre esteve presente em sua vida. “No início eu não sabia por que eu tinha esse encantamento todo com a madeira”, diz ela. “Fazia alguns objetos utilitários aqui e ali, e nunca desisti desse processo de usá-la nas minhas criações”. Durante o desenrolar de seu processo artístico (lento e gradual, como ela mesma afirma), Eva se deu conta de que sua busca tinha como objetivo e destino dar estrutura para suas obras. “Em outro momento isso reverberou também na fotografia, que comecei a praticar e agora todas caminham juntas”. Com isso, foi descobrindo que algumas peças de escultura em madeira conversavam com suas telas. Todas as esculturas foram feitas a partir de madeiras encontradas pela artista durante seus caminhos habituais, e que ela classificou como série Equilíbrio. 

“Eva Cavalcante como artista que se envolve simbioticamente com a natureza tal como uma investigadora de suas nuances, singelezas e acolhimento trilha entre a pintura, escultura e fotografia para propor ao olhar, ao toque, percepção sensorial um caminho pela memória e pelo entendimento do território, das cores e significados que são colocadas comumente todos os dias a nossa mercê, mas que desapercebidamente muitas vezes não nos predispomos a ver e enxergar”, afirma Milla Pasan. 

“Trabalho com o gestual na minha pintura. As cores que uso trazem muito da nossa carga cultural, das nossas raízes, por assim dizer”, comenta Eva. “Adorava pastoril e as suas cores tão chamativas”. Ainda sobre seu processo, a artista revela que não começa uma obra com uma ideia pré-estabelecida. “Ela surge a partir de um gesto e sigo no meu processo até que ela fique resolvida”, diz ela, citando ainda como referências Picasso e a música de jazz, que se compõe à medida em que se é tocada. Com isso, em cada quadro da exposição se observa uma escultura ao lado, compondo o cenário do Complexo Cultural do Teatro Deodoro em um multiformato. 

“A cada entumecida e vigorosa pincelada, uma fenda de fogo, um breu sangrado, se opõem ao aparentemente, frio e pálido azul; este que arde, queima-nos, quando interpelado, interseccionado pela proximidade da composição entre o amarelo e vermelho, a crepitar em nosso imaginário o ápice da chama oposta e complementar, rajada de poente alaranjado”, analisa Alice. 

Segundo Milla, Eva é uma artista que expressa através do gesto abstrato a expressão do seu processo de criação. “Dos anos 80 no Rio de Janeiro até hoje, em Maceió, buscou olhar para seu entorno e conseguiu enxergar a complexidade do simples. Suas referências passam por Fayga Ostrower, Matisse, Picasso etc. além dos artistas populares”, comenta a curadora. 

A vernissage da mostra aconteceu na noite do dia 20 de setembro e deixou a artista bastante emocionada. “Foi lindíssimo, fiquei emocionada pela recepção e por todo mundo que veio prestigiar”, diz ela. “Acabou que o evento proporcionou até um reencontro com muita gente, inclusive da minha família, que eu não via há muito tempo, em razão também da pandemia por que passamos”. Eva também ficou feliz com o retorno que vem recebendo do público visitante, desde as mensagens virtuais, quanto presencialmente na própria exposição. 

Para Alice, existem características marcantes nas obras a serem apreciadas. “A liberdade de expressão quanto à construção e desconstrução pictórica e as intervenções/ressignificações escultóricas, a partir de apropriações do imprevisível apreendido pelo olhar que pousa sobre ‘pequenas coisas’”. 

Além de tudo, segundo Eva Cavalcante, seu Jardim simboliza também a necessidade de mostrar suas obras. “Ainda mais depois de dois anos de pandemia, sem contato direto com a arte, essa necessidade ficou quase vital. Afinal, você não faz arte para você mesma”, diz ela. Com isso, a exposição teve também o papel de aumentar em Eva o ímpeto pelas criações e reverberações que seu trabalho vem causando. “Para mim, a arte é urgente”, comenta. “Além da razão e da sensibilidade, eu trago em cada obra que faço o imponderável”. 


Catálogo virtual da exposição “Jardim de Eva” – AQUI

Instagram @evacacalcante

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