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A FASCINAÇÃO PELO BRANCO: Ou, a “sedução” pontuada de Pastora de Oliveira

Ricardo Maia*

Pastora de Oliveira (1932-2021) é uma poetisa alagoana estreante que produz, de modo muito curioso, uma poesia excessivamente pontuada. Mas é desse modo que ela tenta unir, no eu-poético, razão e sensibilidade. E isso Pastora o faz sem abdicar do espírito. Mais especificamente do espírito de alagoanidade enquanto superego cultural tipicamente brasileiro, isto é, um produto-produtor trans-histórico de um saber-poder nacional que se costuma entender e se passar, ideologicamente, como sabedoria popular. Ou melhor: “um não saber sabendo” com “sabor desconhecido”, como deduz a poetisa.

Daí porque na poética de Pastora de Oliveira, a razão é representada pelo “lírio” (imagem metafórica do princípio masculino-dominante) e a sensibilidade pela “rosa” (imagem metafórica do princípio feminino-dominado). Ou seja, homem e mulher, um e outro. Duas imagens dialéticas que, nesta união, cristalizariam aquele “aspecto misterioso e sacramental da linguagem imajada” de que nos fala Michel Maffesoli (1995, p. 102). “O lírio é fascinante. / Em forma e beleza.”, escreve a poetiza.

 Aqui, considerando que a totalidade do mundo social é sempre acompanhada pela linguagem que a produz e é por ela produzida e reproduzida ― inclusive ideologicamente ―, podemos então perguntar: o que a linguagem imajada, de Pastora de Oliveira, acompanha da totalidade social alagoana da qual faz parte?

 Investindo numa hipótese psicossocial, poderíamos responder esta pergunta afirmando que tal linguagem poética polemiza, deliberadamente, a questão do branqueamento e da branquitude no Brasil das Alagoas. Pois, segundo Pastora de Oliveira ― uma poetisa morena, formosa e encantadora ―, a “brancura” do lírio “é como gotas. […] Faz diferença em nossas vidas. Por sua delicadeza.[1]

Entretanto, no livro de estréia desta poetisa, essa brancura do lírio, que “Cativa quem o vê” mexendo “com sentimento” ― “Sentimentos arraigados” ―, torna-se ainda mais polêmica nas reproduções de obras do romantismo pictural que ilustram, muito paradoxalmente, o livro de Pastora de Oliveira. Obras nas quais é demasiadamente visível a exclusividade racial absoluta do homem branco europeu. Uma exclusividade, segundo Silva Bento (2002), que faz com que os meios de comunicação social brasileiros invistam pesado apenas no modelo branco como grupo de referência da condição humana. O que sem dúvida, no contexto das relações raciais, além de justificar e legitimar a idéia de superioridade de um grupo sobre o outro faz o mesmo no que se refere às desigualdades, à apropriação indébita de bens materiais e simbólicos, e à manutenção de privilégios. (SILVA BENTO, 2002)

Daí porque sem reconhecer sua “NEGRITUDE” ancestral, sequer miscigenada, em tais obras, Pastora de Oliveira, com fina ironia, critica poeticamente o trabalho de ilustração de seu próprio livro dizendo: “Talvez eu esteja. / Numa pintura de Marc Chagal. / Que para ser feliz. / Acompanha-me! / Um bode tocando violino.” Uma ironia que, no entanto, não foi irônica o suficiente para interferir, com todo o direito de autora, no projeto estético do ilustrador. Ao invés disso, ela parece endossá-lo comovida nos seguintes versos do poema “FUGAZ”: “O meu mundo você faz fugaz. […] Faze-o divino e angelical.

Ou, então, diante do mulherio hegemonicamente branco e parnasiano de William Bouguereau (1825-1905), cercado por Eros e cupidos coroados de hera, que tal projeto difunde monoculturalmente, Pastora parece justificá-lo, de maneira relativista, contrapondo a tal mulherio uma pluridentidade étnico-feminina que é tematizada por ela no poema multiculturalista “MULHERES IMPREVISTAS”, no qual diz: “Uma mulher pode ser tudo. / Que seu amado queira. Pode ser FRIDA. / Ser TITA, HANY e DEUSA. / Ter pele de ÉBANO. / Ser até nas vistas uma MENINA. / Ou mesmo CHIQUINHA GONZAGA. […] Ser também NEFERTITI. […] Ser KIKA ou mesmo um ANJO. / Que chegou para ficar. / Na sua Vida.

Entre esses dois mulherios diferentes, no entanto, é a mãe de Cristo que faz o elo de ligação entre eles relativizando-os em um só “quadro” de pertencimento e reconhecimento sociais. Pois segundo Pastora de Oliveira: “Toda mulher é Maria. / Toda Maria é mulher. / Maria é luta. / Maria é mulher.

Emanaria, portanto, dessa “luta” mariana o poder “POÉTICO” (e, portanto, mágico ou simbólico) dessa pluridentidade étnico-feminina, com todas as letras maiúsculas como quer a poetisa. Uma identidade de mulher no plural que ainda está condicionada à imprevisibilidade de uma performance indumentarista na qual a “pele” e o “vestido” são profundamente análogos, para o Outro, no processo de interação social deste com a mulher. No caso, a mulher brasileira típica que Pastora de Oliveira sedutoramente encarna e re-apresenta: “Um vestido, / Nada mais que um vestido. / O homem fica poético. / Diz à mulher amada. / Como você está linda! Como você é bela. / Sempre um vestido! / Não importa a cores. / Vermelho, azul, verde… / Preto é básico, elegância. / A mulher fica sensual.

Contudo, é interessante observar que na poética de Pastora de Oliveira a união entre o “lírio” e a “rosa” é, ao mesmo tempo, uma romântica síntese hegeliana e um acordo de compromisso freudiano realizados pelo eu-poético para gerar, entre os dois princípios mais acima mencionados, um equilíbrio. Muito embora um equilíbrio que será sempre instável. Pois a orientação apaziguadora do espírito de alagoanidade, que atravessa e constitui a poetisa “A PROVA DE TUDO”, é tão ideológica e racionalizadora quanto clara: “Para não entrar em conflito. / Veja tudo diferente.” Ou seja, não veja… E complementa: “Creia na razão, para não se equivocar.

A propósito deste último verso, onde se apela à produção da crença “na razão”, uma razão que decerto seria decorrente do desenvolvimento de um pensamento racional e científico ocorrido no Ocidente, é interessante pressupor aqui que tal apelo, em nível latente, é também uma invocação racionalista à produção de crença na raça branca ocidental. Pois, como se sabe, os autores franceses ligam claramente o racismo e o pensamento racional. Daí porque, entre eles, se salienta que “a palavra ‘raça’ que aparece em francês no século XVI, vem do italiano razza, oriunda do latim ratio, ‘razão’, ‘ordem das coisas’, ‘tipo’, ‘espécie’ (Flem, 1985:153).” O que nos leva a concluir que “somente os ocidentais são racistas”. (VINCENT, 1996; 8. Reimpressão 2007, p. 192)

Posto isso, compreende-se melhor porque “Vagando” equivocada em seus “delírios”, Pastora de Oliveira, então, busca retornar às origens procurando “no deserto” desta mesma razão, hoje niilizada, “Um oásis verdejante.” Um “oásis” refrescador da memória no qual, como diz esta poetisa: “Bebo minhas lembranças. / Enraizadas em mim.” Lembrançasindividuais e coletivas. Neste “MOMENTO” ― um dos “MOMENTOS INTENSOS” dentro de si e da história (onde trabalham “sonhos embalados. / Pelos desejos contidos”) ―, a poetiza experimenta “A vida menos dorida” ao “recordar ilusões” românticas, sensuais e sociais: “As estrelas no céu dão vigor. / A esse amor em conflito. […] Lá embaixo do Equador. [onde]Nós amamos sem pudor.

E isso, enquanto ela espera, numa “noite […]curta e cúmplice”, “O CLAREAR DO DIA”… Esta espera, desde o século XIX e o início do XX, no contexto de uma sociedade preconceituosa e racista (e, portanto, sobremaneira identificada com a sociocultura  que inspirou as pinturas de Bouguereau, com seus alvíssimos “Corpos Nus”), “[…] é um tipo de discurso que atribui aos negros o desejo de branquear ou de alcançar os privilégios da branquitude por inveja, imitação e falta de identidade étnica positiva.” (SILVA BENTO, 2002, p. 17)

Sendo assim, neste contexto psicossocial os “FILHOS BEM AVENTURADOS” ― isto é: “reluzente[s]”, porque branqueados ― são, de fato histórico, os frutos positivos e divinizados de um “amor em conflito”. Conflito étnico-racial de “Um amor avassalador”. “Um amor puro e sincero” experimentado “sem pudor” no liberal hemisfério sul do planeta, onde acontece um “CARNAVAL SEM CULPA”. Tempos depois, numa “semelhança virtuada” com os semi-deuses ou heróis bíblicos pré-diluvianos[2], estes “FILHOS” chegam ao “lar” como os deuses graciosos (i.e., os astronautas antigos do Oriente Próximo) chegaram à Terra: “Chega o terceiro de mansinho. / Vem como um anjo que cai. […] O quarto filho vem reluzente. […] Vem com o amanhecer. / Trazendo raio de luz para o lar.

No sujeito negro ou mestiço, o impacto psicológico negativo dessa espera de um “alvorecer” alumbrante da própria prole[3], está também poeticamente indicado, por Pastora de Oliveira, ao que tudo sugere, nos seguintes versos de “ABSTRAÇÃO”: “Meus pensamentos. / São confusos e abstratos. / Procuro orientar-me.” Já nos versos de “NUM MAR SEM RUMO” tal impacto encontra-se representado assim: “Vivo num barco a deriva. / Procuro o leme e não encontro. […] Sigo o meu caminho. / Caminho que me foge.” E sobre este a poetiza se pergunta, melancólica, “ATÉ QUANDO?” ― afirmando em seguida: “Não quero maldizer o rumo. / Deste amor que tomou posse.” Posse, jamais indébita, inclusive e sobretudo de um capital genético milenarmente divinizado do ponto de vista bíblico-social… “Pois”, como assevera Pastora de Oliveira, “não existe culpado. […] Livro-me do deslumbramento.” E, como uma pagã desavisada, diz mais: “No desalinho da vida. / Não me avisaram. / Que amar era pecado.

Estes versos, sem dúvida, captam com precisão poética o que Kabengele Munanga (2002, p. 10) descreve, teoricamente, como sendo “[…] os efeitos psicológicos do legado do branqueamento sobre o processo de construção da identidade negra.” Daí a desilusão de Pastora de Oliveira em relação ao beletrismo romântico de seus “VERSOS E RIMAS DE SAUDADE”: “Não adiantaram os versos. / Nem rimas que escrevi. […] O que faço é quimérico. […] É uma angústia velada. […] É um possuir não tendo. / É um não lutar lutando.

Ora, a “razão” pela qual a poetiza se orienta parece ser mesmo do tipo “louca” (ROUANET, 1996, p. 451)[4] e, portanto, enlouquecedora. Pois ao mesmo tempo que esta a exorta a promover “a compreensão” e a cooperação “com a verdade”, ela diz, contraditoriamente, que “Tudo é novo”… E, como se não bastasse tal sandice, a orienta a por “de lado o ego e o orgulho” ― obviamente o ego e o orgulho de sua “NEGRITUDE” individual e coletiva ― acreditando e fazendo-a acreditar que “Os dois só atrapalham”. Contudo, Pastora reage com “razão sábia”, que é antípoda da “razão louca” (ROUANET, 1986, p. 451 e 457), e encara poeticamente as tensões raciais da sociedade em que vive, dizendo a si mesma: “Renda-se à sublimidade. […] O sublime não se rende. / Se submete ao conflito.

Conflito este, aliás, que é na certa resultante da ultrapassagem da chamada “linha de cor” no sentido do branqueamento (PIZA & ROSEMBERG, 2002, p. 91). O que implicaria na “[…] percepção de limites territoriais de um apartheid não-declarado oficialmente” (CARONE, 2002, p. 20). Um apartheid que talvez seja o que faz Pastora de Oliveira pontuar, tão performática e excessivamente, seu caminhar poético num “caminho longo” até a “CIDADE LUZ” (Maceió). E, além do mais, sob um “SOL EM DECLÍNIO”… Mas só que, neste caminhar, percebendo o Outro e se auto-representando ao lado deste assim: “Minha pele em chamas. / Queimando junto a ti suando.

Outro grande contra-senso produzido por essa “razão” conselheira e enlouquecida encontra-se nos seguintes atos de fala: “O medo nos impede de seguir nosso destino” logo após dizer à Pastora: “Proteja-se. Dê valor ao sentimento. / Não suprimindo suas emoções. / Só o medo mantém a mente fechada. / Mente aberta pode receber e processar. / Novos conhecimentos.” E elevando ao paroxismo o seu racionalismo empirista, complementa: “A experiência é muito importante.

Ora: é essa mesma “razão” eurocêntrica e superegoica que, historicamente apavorada com uma suposta “NEGRITUDE” agressiva[5], dissuade a poetisa de se orgulhar do não-branco fazendo-a representar este, portanto, de modo socialmente negativo: “O orgulho é negro. / É inimigo, é obscuro. / A vingança é traiçoeira. / O rancor domina cada ser. / O sonho torna-se pesadelo. / A piedade vira maldade. / A clemência torna-se irracional. […] O céu pede socorro. / Para quem tem coração.

Note-se que nestes versos Pastora de Oliveira recorda e (d)enuncia os medos teológicos, através dos quais e por uma espécie de pedagogia do choque a igreja de outrora fomentava a violência entre os grupos buscando substituir, por meio de tais medos, a forte angústia coletiva que resultava de estresses acumulados. (SILVA BENTO, 2002) No século XIX e início do XX, o medo do negro, por exemplo, levou o Estado brasileiro ― um país com um contingente populacional majoritariamente composto por não-brancos ― a gerar uma política de imigração européia que, em apenas trinta anos, trouxe para o Brasil um número de brancos (3,99 milhões) que era equivalente ao número de negros (4 milhões) que, para o país, foram trazidos ao longo de três séculos. Teria decorrido desta política os ideais de miscigenação no Brasil. Na verdade uma ideologia que, de acordo com os estudiosos da escola paulista, legitimava o branqueamento no país como um problema do negro. E isto enquanto expressava uma forma de manipulação deste, objetivando a integração e a ascensão sociais. (SILVA BENTO, 2002)

Entretanto, como observa mais uma vez Silva Bento (2002, p. 54): “[…] ainda que o branqueamento se constitua numa invenção da elite branca e, posteriormente, se afigure como uma resposta à ascensão negra, não há como negar seu impacto sobre a população negra.” E complementa: “É importante tentar compreender também o que ocorre com o negro no processo de branqueamento.” (Grifo da autora)

Ora: é exatamente isso o que faz Pastora de Oliveira, uma criativa também das artes cênicas, quando encena em seu livro uma espécie de psicodrama lírico. Um psicodrama monologal (no sentido bakhtiniano do termo) no qual, auto-ironicamente, ela se torna atriz de si mesma[6]: “Eu sou palhaço de mim. / Faço meu picadeiro. […] Meu picadeiro particular. […] Ali resgato o meu ser. […] Sei que é minha sina.

Pelo que tudo indica nestes versos sintomáticos[7], a criação dramatúrgica desse psicodrama circense é, sem dúvida, originária da psicologia sócio-histórica do povo brasileiro. Uma psicologia que é herança de gerações anteriores que foram cúmplices da branquitude e do seu “desejo adoidado” de branquear o “nego” brasileiro.[8] Por isso, pode-se dizer, com base em Freud, que tal herança psicossocial herdada por Pastora de Oliveira foi passada à sua singular subjetividade individual de poetisa graças àquela transmissão inconsciente dos processos psíquicos de uma geração para outra.

Explicando melhor este pressuposto freudiano em um ensaio sobre “Branqueamento e branquitude no Brasil”, a pesquisadora Maria Aparecida Silva Bento (2002, p. 46), diz: “A hipótese é que, na psique de massa, os processos psíquicos ocorram de forma similar aos que acontecem na psique individual. Uma tendência reprimida deixa um substituto, um traço, que prossegue sua trajetória até tomar corpo e significado para um sujeito singular. Este sujeito pode ser entendido como elo da cadeia dos ‘sonhos e dos desejos’ não realizados das gerações que o precederam, ou seja, ele é o servidor, o beneficiário e o herdeiro da cadeia subjetiva da qual procede.”

É nessa “cadeia subjetiva” da história das relações raciais no Brasil, que Pastora de Oliveira colabora com o movimento negro, oferecendo a este e a seus estudiosos, de modo poético, a singularidade da sua experiência de vida registrada em seus poemas que são, também, nossos scripts culturais. Pois como diz esta poetisa ao hipócrita leitor branco de seu livro, na certa seu “amor bandido”, tentando implicá-lo historicamente: “A experiência é muito importante. […]Ao longo da trajetória. / Sairias da prisão. / Contarias melhor a história. / Quando prisioneiro.

Foto: Ricardo Maia

Ricardo Maia

É alagoano de Maceió, mestre em psicologia social pela PUC-SP, crítico de arte e autor do livro Maceyorkinos: ensaios de crítica cultural à Maceió-artística glocalizada.


NOTAS

[1] É bem possível que nestes versos a palavra “gotas” esteja fazendo uma alusão deslocada, ou às avessas, à chamada “regra de uma gota de sangue”. Ou, como dizem os racistas estadunidenses, “one drop rule”, para significar gotas de sangue negro. Nesta teoria racista norte-americana, uma gota de negritude no sangue é o bastante para que, ao longo de oito gerações, uma pessoa reconheça em si e no outro a sua origem africana sem importar se, na sua aparência, os processos de miscigenação a tenham clareado o bastante ao ponto dela já ter há muito ultrapassado o que, no Brasil, chamamos de “linha de cor e/ou aparência”, que é uma forma de classificação racial brasileira. (PIZA, 2002; SEMPRINI, 1999)

[2] Refiro-me aqui, de modo implícito e mais especificamente, ao nascimento do herói bíblico Noé. Pois segundo o mito: “Seu corpo era branco como a neve e vermelho como o desabrochar de uma rosa; seus cabelos e longos cachos eram brancos como a neve; seus olhos eram belos. / Quando ele abriu os olhos, iluminou a casa toda como o sol e a casa ficou muito brilhante. / Quando ele abriu os olhos, iluminou a casa toda como o sol e a casa ficou muito brilhante. / Quando a parteira o ergueu, ele abriu a boca e conversou com o Senhor da Justiça. / Chocado, Lamec correu para seu pai Matusalém, e falou: / Gerei um filho estranho, diferente do homem e parecido com os filhos do Deus do Céu, sua natureza é diversa, ele não é semelhante a nós… / E porque não se originou de mim, mas dos anjos.” (Cf. esta citação no livro A Escada para o céu: o caminho percorrido pelos povos antigos para atingir a imortalidade [Ed. Best Sellers, ], do pesquisador erudito Zecharia Sitchin [2002, p. 141]).

[3] No livro Pele negra, máscaras brancas, Franz Fanon (citado por SILVA BENTO, 2002, p. 32), um psicanalista negro, diz: “Quando o europeu entrou em contato com o negro,… todo mundo concordou: esses negros eram o princípio do mal… negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais…” Ou seja, a natureza. Aliás, “natureza” esta que, na poética de Pastora de Oliveira, é tão “cúmplice” quanto a “noite”…

[4] Analisando As Bacantes, um texto dramatúrgico de Eurípedes, visando pensar a complexidade do conflito dialético entre razão e paixão, o filósofo Sérgio Paulo Rouanet (1986) reconhece neste conflito, múltiplas facetas, ambigüidades e entrelaçamentos. Haveria, por isso, entre razão e paixão, segundo ele, “uma interação mais ampla, que abrange dois tipos de razão e dois tipos de paixão.” (p. 440) Quanto a esta última, haveriam duas “paixões fundamentais” (p. 445): a paixão da vida e a paixão da morte, ou seja o amor e o ódio. Já no que se refere à razão, uma seria do tipo “louca” e a outra do tipo “sábia”. (p. 451 e 457) A primeira destas, como afirma ainda Rouanet: “[…] se dá, no registro cognitivo, quando a razão, interagindo com a paixão, deixa-se influenciar por ela, perdendo a objetividade necessária ao conhecimento e mergulhando na falsa consciência, isto é, uma incapacidade mais ou menos durável de conhecer.” (p. 451) A segunda, sendo “órgão do conhecimento”, interage com a paixão conseguindo o que a razão louca não consegue: acessar “o saber imparcial”. (p. 457)

[5] Em seu estudo sobre os usos e sentidos da negritude, Kabengele Munanga (1986, p. 54), indica e resume as concepções de L. V. Thomas mostrando como para este crítico “a literatura promoveu outras concepções de negritude” (grifo do autor), dentre estas, que seria quatro no total, a concepção de “Negritude agressiva” (grifos do autor). Este tipo de negritude, segundo Munanga, se define como sendo “uma fase de revolta, de negação da razão, do Deus branco, da beleza ocidental, das línguas européias. Reivindica a raça até nas suas carências.”

[6] Penso aqui em Pastora-poetiza encarnando na sua vida-obra a figura do “fantasista”, de Ethel S. Person (1997, p. 21); ou seja: um sujeito ou ideal tipo que representaria, segundo esta analista, “três papéis, o de autor do script da fantasia, o de ator no drama ― muitas vezes a estrela dele ― e o de audiência para a qual a fantasia foi elaborada.”

[7] Este tipo de poesia, segundo Affonso Romano de Sant’Anna (1985, p. 15), seria aquele produzido por um grande número de “autores sintomáticos” (grifo do autor), ou seja, “autores menores e desconhecidos” que ajudam “a reconstituir uma teia de significados importantes para a análise do inconsciente ideológico.” Os fatos de serem “autores menores”, acrescenta Sant’Anna, e da maior parte deles viverem e escreverem “em completa ignorância do que era a Psicanálise, levariam eles a cristalizar “com mais facilidade a linguagem alheia” demonstrando “uma espontaneidade às vezes comovedora.”

[8] Utilizo aqui estas duas expressões da poesia de Pastora de Oliveira (2011) pelas seguintes razões: porque a primeira (“desejo adoidado”), mesmo aqui descontextualizada, remeteria, de maneira poeticamente singular, à expressão teórica “desejo de branquear” substituindo-a; já à segunda (“nego”), que tem o fonema “r” vulgarmente subtraído, estaria simbolizando, na própria materialidade lingüística ou corpo mutilada da sua expressão, as violências material e simbólica sofridas pelo “negro” ao longo e depois da escravidão no Brasil. No livro de Pastora, a violência da exclusão social dirigida ao homem não-branco, por exemplo, estaria representada literariamente nos seguintes versos do poema “CARNAVAL SEM CULPA”: “Salões de bailes dos abastados. / Os excluídos pulam na praça. / Carnaval na rua, festa popular. / Nego dança, pula todo faceiro.” Portanto ainda sobre a expressão “nego” é interessante observar aqui que ela, nesse contexto de exclusão social, pode também está designando (ou aludindo) o homem “negro” negado… já que, na língua portuguesa, a palavra “nego” pode também ser usada para se conjugar o verbo “negar” na primeira pessoa do singular.

Referências

CARONE, Iray. Breve histórico de uma pesquisa psicossocial sobre a questão racial no Brasil. In: CARONE, Iray; SILVA BENTO, Maria Aparecida (orgs.). Psicologia social do racismo: estudos sobre a banquitude e o branqueamento no Brasil. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

MAFFESOLI, Michel. A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes e Oficio, 1995.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentido. Série Princípios. São Paulo: Ática, 1986.

MUNANGA, Kabengele. Prefácio. In: CARONE, Iray; SILVA BENTO, Maria Aparecida (orgs.). Psicologia social do racismo: estudos sobre a banquitude e o branqueamento no Brasil. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

OLIVEIRA, Pastora de. Sedução. 1ª ed. Maceió: Mascarenhas, 2011.

PERSON, Ethel S. O poder da fantasia: como construímos nossas vidas. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

PIZA, Edith. Porta de vidro: entrada para a branquitude. In: CARONE, Iray; SILVA BENTO, Maria Aparecida (orgs.). Psicologia social do racismo: estudos sobre a banquitude e o branqueamento no Brasil. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

PIZA, Edith; ROSENBERG, Fúlvia. Cor nos censos brasileiros. In: CARONE, Iray; SILVA BENTO, Maria Aparecida (orgs.). Psicologia social do racismo: estudos sobre a banquitude e o branqueamento no Brasil. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

ROUANET, Sérgio Paulo. Razão e paixão. In: Os sentidos da paixão. CARDOSO, Sérgio (org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. O canibalismo amoroso: o desejo e a interdição do desejo em nossa cultura através da poesia. São Paulo: Brasiliense, 1984.

SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo. Bauru-SP: EDUSC, 1999.

SILVA BENTO, Maria Aparecida. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: CARONE, Iray; SILVA BENTO, Maria Aparecida (orgs.). Psicologia social do racismo: estudos sobre a banquitude e o branqueamento no Brasil. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

SITCHIN, Zecharia. A escada para o céu: o caminho percorrido pelos povos antigos para atingir a imortalidade. São Paulo: Best Seller; Nova Cultural, 2002.

VINCENT, Sylvie. Heterofobia e racismo nas organizações. In: CHANLAT, Jean-François (coord.). O indivíduo na organização: dimensões esquecidas.1ª ed. 8ª reimp. São Paulo: Atlas, 2007.

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