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NO “LABIRINTO” DO MUNDO EM MACEIÓ-AL: uma leitura crítica do romance de estreia de Lincoln Villas Boas

Ricardo Maia*

Lincoln Villas Boas | Foto: Divulgação

LABIRINTO (HD Livros, 1999. 224 p.), o romance de estreia do alagoano Lincoln Villas Boas (1954), parece ter sido escrito com o firme propósito de ser transposto para o cinema. Na estrutura sequenciada de suas partes, o leitor cinéfilo já percebe, nitidamente, um excelente roteiro cinematográfico quase pronto: “Na sua cabeça passava um filme”, escreve não por acaso o próprio Lincoln, enquanto um narrador onipresente, indicando para os leitores o momento (ou melhor, a cena) em que Patrício, um personagem de seu livro, se recorda da “visita que fizera ao apartamento dos pais da moça” (p. 19) supostamente assassinada.

Ora: a possível semelhança textual de Labirinto com a escritura cinéfila é reconhecida, pelo próprio Lincoln, em uma nota explicativa na qual ele nos fala do processo de “estruturação” de seu livro. Uma obra que trás em seu bojo, segundo este psicanalista e doutor em letras pela UFAL, “uma série de episódios instantâneos, como epifanias cotidianamente visíveis.” Tais episódios epifânicos, de acordo ainda com Villas Boas, “poderiam ser alinhavados como uma rede de montagem, talvez semelhante a um roteiro cinematográfico.” (p. 217) Daí porque a literatura e o cinema policiais aparecerem conjuntamente celebrados de passagem, pelo narrador, no seguinte trecho: “Ajustei a gravata no espelho. Estava desalinhada. ‘Você não lê romances policiais?’, perguntei. ‘Não vê filmes policiais?’” (p. 62).

É nesse sentido cinefílico que o leitor bem informado sobre literatura alagoana percebe o que talvez seja, no Labirinto de Villas Boas, uma alusão implícita à Ninho de Cobras: o famoso romance do também maceioense Lêdo Ivo. Isto acontece quando tal leitor passa pelo seguinte trecho em que o primeiro autor faz na certa, portanto, outra alusão nada implícita ao clima natural infernalmente quente de Alagoas. Em especial ao daquela Alagoas dos que lutam arriscando a própria vida, no exercício da profissão, pelo cumprimento da lei e da justiça: “O rabecão já havia desaparecido com os peritos e o cadáver. Ficaram só os dois ali, sob o sol quente, no meio de uma trilha ladeada de touceiras de cana. Novamente, Enéias enxugou a testa e viu, a uns cinco passos, uma cobra cruzar rapidamente a trilha” (Grifo nosso, p. 18).

Ao longo da leitura de Labirinto, um conjunto de alusões implícitas de mote cinefílico, obviamente para celebrar os grandes filmes de arte, vai se tornando perceptível ao leitor (ou leitora) que também seja um aficionado nos clássicos do cinema. Aliás, num só trecho do referido livro ― mais exatamente no trecho em que o narrador onipresente relata para a personagem Roxane, sua colega de trabalho, um curioso sonho que tivera ―, logo se percebe um subconjunto de tais alusões a, pelo menos, quatro filmes inesquecíveis: Freud Além da Alma, de John Huston; O Iluminado, de Stanley Kubrick; de Alfred Hitchcock, Quando Fala o Coração Os Pássaros. Todos estes tão intensamente simbólicos quanto o sonho do narrador lincolniano: “‘Os sonhos são sempre interessantes’, ela disse. […] ‘É tudo muito simbólico’”. (p. 125-126).

Pressuponho acima tais alusões porque embora Villas Boas objetive “entender o homem em situação” (cf. texto da contracapa do livro), isto é, em seu Labirinto psicossocial multicursal, essa “situação” humana quase nunca é geograficamente especificada. Mas, sim, generalizada na maioria das vezes e sem precisão cronológica. Pelo menos para os leitores pós-modernistas que não levem em conta, nos processos criativos, a força profundamente dinâmica do contexto sócio-histórico singular ―isto é, ao mesmo tempo local, nacional e global ― onde o livro de Lincoln foi escrito “ao longo de vinte anos” (p. 217): a Maceió-AL das últimas décadas do século XX: “[…] estavam no Brasil, notadamente em Maceió” (p. 69), assinala o narrador, de passagem, referindo-se a dois norte-americanos palestrantes “que cultivavam a mentalidade intervencionista como se isso fosse a coisa mais natural do mundo” (p. 64). Pois, de acordo com o narrador ainda, o Dr. Cavanaugh e Doug McPherson “podiam invadir as outras economias, mas se sentiam injuriados quando os países em desenvolvimento despejavam, segundo as condições mesmas e as regras de mercado que tanto defendiam, seus produtos a preços mais vantajosos para os consumidores. O Dr. Cavanaugh não dizia uma palavra sobre isso” (p. 64).

Estas pressuposições teóricas, no Labirinto de Lincoln, nos obrigam, portanto, a conceber o atual contexto alagoano numa síntese dialética altamente glocalizadora… Uma síntese tão complexa e esclarecedora que ― mesmo através de uma literatura classificada como alagoano ― nos faz perceber o mundo em Alagoas e Alagoas no mundo… Pois é exatamente esta a visão político do autor em seu romance aqui abordado. Aliás, esta fica bastante clara no seguinte trecho deste, onde Villas Boas escreve sobre a situação e os posicionamentos da Sra. Qing no planeta Terra ― um mundo, há priscas eras, multicultural.

No romance de Lincoln, a Sra. Qing é uma idosa chinesa dedicada “à arte de ler os sinais nas folhas de chá” (p. 15). Uma mística que, por irônica coincidência, tem o mesmo nome da revolucionária mulher de Mao Tsé-tung. Na juventude a Sra. Qing fugira de seu país para “‘Qualquer lugar longe da China comunista’” (p. 12). Mas ela garante que nunca foi perseguida nem passou fome… Apenas precisou fugir dos “conflitos de Xangai” (p. 14). Ou, falando de outro modo, do “banho de sangue” (p. 14) dado na China por Chiang Kai-shek… Àquela altura de sua vida, ela estava em Alagoas, segundo o próprio relato, “Por acaso, ou por ter sentido solidão em Los Angeles, no Rio de Janeiro…” (p. 12). Isto é, um sentimento tão demasiadamente humano e, portanto, universal que é compartilhado com a Sra. Qing por quase todas as personagens nativas do Labirinto lincolniano. Aliás, um sentimento que as fazem se perceber tão estrangeiras quanto a idosa chinesa refugiada no Ocidente. E, com efeito, pessoas exiladas na própria terra…

Sem nunca ter lido Freud, a misterioso Sra. Qing, curiosamente parece confirmar em seu discurso a noção psicanalítica de inconsciente. Ela faz isso argumentando com rapidez mental e a antiga sabedoria do Oriente, herdada de seus ancestrais. E o faz para, de modo estratégico, se esquivar delicadamente da compulsiva vontade de saber de um estranho consulente seu: o narrador onipresente (e, por isso mesmo, pretensamente onisciente) do Labirinto mundano onde, há milênios, seus personagens e todos nós habitamos: “‘Hoje, antes do senhor chegar aqui, outro homem veio conversar comigo’, ela disse. ‘Ele queria que eu lhe dissesse por qual motivo ele fazia o que fazia. Mas não pude lhe dizer nada. Não há razões alheias que possam ser vistas com clareza’” (p. 13)

Ora: é justamente esta humana condição de “palimpsesto obscuro, desenterrado em alguma demolição” (p. 15), condição decorrente da eterna e coisificada opacidade do Outro, que Lincoln Villas Boas tenta superar escrevendo “história reais mescladas de ficção.” Afinal, como psicanalista que também é, ele compartilha com Cornelius Cartoriadis (1991 e 1992), outro pensador das “encruzilhadas do labirinto”[2] contemporâneo, a noção psicossocial de que a sociedade se institui imaginariamente.[3] Daí porque, em seu livro, Villas Boas justifica assim sua “onipresença” (p. 9) enquanto criador literário: “Às vezes obrigam o autor a uma onipresença que ele preferiria descartar porque se posicionam de forma enfadonhamente definida e irritante. Este argumento pode parecer contraditório. Seria muito melhor e mais produtivo, talvez, escrever pura ficção” (p. 9). E citando o exemplo do prêmio Nobel colombiano, diz mais: “Gabriel Garcia Marques sempre reagiu mal quando diziam que seu Cem Anos de Solidão era realismo fantástico. E rejeita o fantástico, pontuando todo um back-ground visual e auditivo, que se reporta à sua mais remota infância, notadamente as bases de todo o romance” (p. 9).

No caso específico do autor de Labirinto, esse “back-graound visual e auditivo” (p. 9) o remete na certa às recordações de sua juventude em Maceió e na cidade do Recife, onde cursou psicologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) nos anos 70. Como se vê, uma juventude universitária ― e, portanto, sofisticadamente intelectualizada ― que ainda encontrava no filósofo francês Jean-Paul Sartre o modelo ideal de ego criativo e politicamente participativo. Pois no romance aqui abordado, a prova da incorporação desse modelo sarteano do “intelectual universal” (ADORNO, 2004, p. 40)[4] se encontra hoje na miríade de temas interconectados que Lincoln domina plenamente. E sempre com profundo conhecimento de causa e literariedade.

Alias, não só: uma prova do desejo dessa incorporação está indicada no seguinte trecho, do romance supracitado, onde seu narrador onipresente parece confessar de modo literário, através da personagem Paulina, sua “fantasia organizada” de ir à Paris e, , ocupar o lugar do filósofo existencialista no Café onde este costumeiramente freqüentava inclusive a trabalho: “[Paulina] Sentou-se no sofá e cruzou as pernas. “Fui ao ‘Deux Magots’, sorriu. ‘A idéia era sentar na mesma mesa de Sartre, sob o toldo…’ / ‘O toldo?’, falou Iuri. / “O pessoal achou ridículo… O que eu queria? Ver ainda os resquícios de tinta da caneta com que ele escreveu ‘Critique de la Raison Dialectique’? Absurdo’, recordou. Alcançou a sacola e puxou o fecho” (p. 35).

É nesse sentido que o papel das memórias fantasísticas (ou fantasmáticas) seria complementar ao das “histórias reais” (p. 9) registradas por Lincoln Villas Boas. Daí porque este autor, vindo da psicanálise e da cinefilia, argumenta que “o fantasma […] sabe algo de nós e algo de si que pode nos comunicar. [Ele,] afinal, acaba sendo mesmo a aparência do outro que nos contraria e inquieta quando mostra aquilo que não conhecemos” (p. 158). O que faz de seu romance Labirinto, apesar de algumas providências muito precavidas tomadas por seu autor, uma obra tão verídica quanto seus Testemunhos do Vivartismo. Ou seja, seus “Escritos de intervenção cultural na Maceió-artística da pintura (1992-2004)”: um opúsculo subsequente de apenas 116 (cento e dezesseis) páginas, mas bastante esclarecedor sobre o movimento vivartista, que, por si só, além de comprovar o ditado que diz que número de página não é apanágio de profundidade, decerto segue o romance de estréia, de Lincoln, para redimir este autor maceioense do anti-alagoanismo cult. Um anti-alagoanismo tão radical e socialmente sintomático, que o fez recalcar, no processo criativo de seu livro aqui analisado, toda e qualquer referência a figuras e produtos do campo artístico alagoano. Pelo menos em nível manifesto…

Talvez o sintoma mais evidente disso, no texto de Labirinto, seja uma fala da jornalista Roxane em que ela, ao pensar na situação dos criativos da arte em Alagoas, recorda-se de uma irônica observância do músico carioca Tom Jobim, quando, na verdade, poderia ter se lembrado de outra quase idêntica e mais pertinente do poeta alagoano Marcos de Farias Costa, na qual este diz: “Ao escritor e artista alagoanos restam apenas duas únicas saídas condignas e satisfatórias: o aeroporto e a estação rodoviária” (Cf. Coisas & Loisas, 1988, p. 56).

Por isso, ao penetrar empolgado o Labirinto lincolniano, como se fosse Teseu, o alagoanista convicto, ao longo de sua leitura do mesmo, vai ficando triste… Pois aos poucos este leitor descobre que o fio condutor, que lhe garante a saída de tal estrutura labiríntica multicursal, não é de um novelo de rendeiras da comunidade maceioense do Pontal da Barra. É de “Ariadne”… (p. 217) Ou seja, é estrangeiro e estrangeirista. Mas talvez em compensação, ele também descubra, graças à inteligência eurocêntrica de Lincoln, que o Minotauro ali é ele próprio… Digo “talvez”, porque ― como mesmo pressupõe, esclarecedoramente, o próprio narrador de Labirinto, a respeito do bem sucedido “jogo” (p. 70) jogado na vida pelo casal Charles Hautecourt e Maria Augusta Alencar ― o contato com a escritura lincolniana, no referido livro, implica uma “leitura [que] não é aberta a todos.” Pois tal leitura, sem dúvida, exige da maioria dos leitores quase a mesma “arte” pericial e misteriosa da Sra. Qing de “ler os sinais nas folhas de chá.”

Neste ponto, é interessante notar que a estrutura do Labirinto lincolniano é dividida em pequenos textos que, ao incorporarem o estilo enxuto ou conciso das crônicas jornalísticas e dos contos literários, revelam-se tão metodicamente elaborados quanto à pragmática das lavadeiras alagoanas: personagens micro-históricas que Graciliano Ramos, em sua opinião, transformou em metáforas de bons escritores. Essa concisão enxutíssima, no entanto, não significa nem de longe, no romance de Lincoln Villas Boas, um represamento do caudaloso sistema de pressupostos psicossociológicos que fundamentam a visão de mundo projetada em sua escritura. O que, em consequência, e já no início da mesma, nos oferece um complexo argumento fílmico. Aliás, um argumento por demais sofisticado que ele extrai das mais finas flores do jardim filosófico e/ou científico do mundo ocidental: Marx, Freud, Simone de Beauvoir, Sartre, Levi-Strauss, os filósofos frankfurtianos da Teoria Crítica, dentre outros. Basta vermos as últimas quatro páginas de seu Labirinto.

Vem desse luminoso jardim de sebes labirínticas, por exemplo, as reflexões dialéticas sobre o que é literatura. Reflexões estas que fazem Lincoln Villas Boas rejeitar, como grosseiras, concepções dicotômicas deste campo criativo. Por isso que, ao interpolar sua criatividade entre realidade e fantasia, no processo de criação de sua obra, ele faz, “Na verdade”, a astuciosa opção de “escrever histórias reais mescladas de ficção” (p. 9). Ou, segundo ele ainda, “uma espécie de exercício da fantasia organizada” (p. 9). Nesse brilhante exercício intelectual, Lincoln tem os latino-americanos Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Marques como seus dois grandes mestres a lhe respondem, satisfatoriamente, à pergunta-chave: “Afinal de contas, o que é ficção e o que é realidade em literatura?” (p. 9).

E, recordando-se da experiência do primeiro para encerrar o tema, ele conclui assim o primeiro texto de seu Labirinto: “Eis um questionamento que Jorge Luis Borges classificaria, e com motivos de sobra, de estúpido” (p. 9).

Além de referências a nomes importantes do campo criativo ocidental, seja este da arte ou da ciência, podemos inclusive verificar no romance LABIRINTO, de Lincoln Villas Boas, diversas menções a produtos artísticos confeccionados em nossa sociedade de cultura de massa. Sendo assim, através da análise de conteúdo textual, podemos encontrar citados neste, títulos de canções famosas como, por exemplo: “Les Mots d’ Amour” (p. 26); “But Not for Me” (p. 88); “Sweet Dream Baby” (p. 36); “My Baby just Cares for Me” (p. 93); “No Opportunity Necessary, No Experience Needed” (p. 8); “Stardust” (p. 51); “Folha de Papel” (p. 51) e “I Wanna Be Loved by You” (p. 22). Esta última, numa certa passagem do livro, implicada como “música […] incidental” (p. 22) que, no projeto de construção do romance, funcionaria como uma espécie de áudio, altamente simbolista, numa cena de filme cult. Uma cena que também é encenada, ou poderia ser, no “teatrinho particular” (p. 41) de uma História “que acaba entediando os espectadores cativos” (p. 41). Aliás, um mini-teatro privado onde em demasia, segundo Lincoln, seres excessivamente humanos “oscilam entre a tragédia e a farsa, manifestando-se através da dúvida de não corresponderem a seu próprio retrato falado. Sabem o que fazem, mas não o que sentem. Porém, não são vítimas. Deixam-se arrastar pelas circunstâncias como se elas fossem a origem de uma aprendizagem surpreendente, mas estivessem fora deles mesmos.” (p. 8)

Então, de modo parcial, Villas Boas conclui alertando o leitor com visão finalista tipicamente pós-moderna: “Há muita gente se esforçando para tornar a própria história excepcionalmente insípida, a ponto de, ao fim de tudo, não merecer sequer um necrológico decente. E há pouca diferença entre a vaidade de ser honesto e o comprazer-se do mal. Apenas se pode assinalar no segundo causação de certo escândalo e, na primeira, de certa admiração. Mas ambos são desprezíveis por fomentar um jogo de aparências cuja fonte é um niilismo dos mais radicais. A solidão que transborda das duas situações coloca um impasse acerca da natureza da bondade e da maldade, estruturando uma realidade onde os sentidos bastam para definir as coisas, apesar de muitas convicções arraigadas quanto aos apelos do bom senso. Porque há o certo, o errado e o inevitável” (p. 8). E “o inevitável” nesse meio-mundo de “gente” é perceptível, de acordo com Lincoln Villas Boas, na ambivalente (in-)disposição humana para o conhecer-se a si mesmo. Ou seja, para o auto-conhecimento. Ele exemplifica muito claramente, tal ambivalência, no trecho em que ele escreve sobre a clientela consulente da Sra. Qing. É quando ficamos sabendo do real motivo pelo qual homens e mulheres vão procurá-la. E este é, sem dúvida, um motivo mais histérico que histórico. Pois, em geral, segundo Sun Tzu, o filho mais novo e assistente da Sra. Qing, eles e elas “‘vêm procurá-la para escutar o que querem. Ninguém, de fato, se prontifica a ouvir a verdade’” (p. 15).

Esta revelação de Sun Tzu e ele próprio são, logo em seguida, comentados pelo narrador onipresente do livro ― um alterego translúcido de autor ―, na certa para oferecer aos leitores uma explicação psicossocial, que é também uma crítica cultural, sobre o fenômeno observado. Incluindo neste, é claro, seu observador: “Ele diz isso como se existisse em cada indivíduo um desejo de saber acerca de si mesmo que exclui o próprio esforço para a descoberta. Talvez tenha razão. Nos últimos dez anos, os indivíduos investiram na banalidade da intimidade para resolver seus conflitos interiores, para se proteger da solidão ou para proteger de si mesmos a ilusão de que fazem parte de um futuro onde a individualidade é regulada pela transparência. Agora, não querem mais dizer como são. Têm necessidade de ser decifrados como um palimpsesto obscuro, desenterrado em alguma demolição” (p. 15).

Essa “demolição” suspeitada pelo narrador não só se equipararia ao fim da “idolatria de sacrossantas nulidades” (p 16). Todas estas, é claro, produzidas pelas diferentes mídias hoje existentes… Equiparar-se-ia também, em nível arquetípico (no sentido junguiano), à destruição de Sodoma e Gomorra. Daí porque o homossexual “Hugo estava no limiar da explosão”… (p. 45) A última palavra desta frase, no contexto argumentativo de nossa pressuposição crítica, alude decerto à teoria não-ortodoxa de Erich Von Däniken (2000, p. 53) que prediz que as duas cidades bíblicas mencionadas foram varridas do mapa por uma suposta “explosão nuclear”, já ocorrida na antiguidade, ordenada pelo Deus-astronauta Javé. E, em consequência, provocada por seus belíssimos anjos. Personagens estes que, no Labirinto de Lincoln, parecem estar representados pelas figuras do Dr. Cavanaugh e da sua comitiva estrangeira em Maceió. Uma comitiva que tem em vista o claro objetivo de fazer vingar, no “Paraíso das Águas” (Maceió), o sistema de econômica globalizada. Uma possível evocação implícita, podemos pressupor aqui, à outra obra-prima da literatura alagoana: O Anjo Americano, romance do também maceioense Luis Gutemberg.

Entretanto, o efeito da globalização econômica em Maceió só é então percebido, por personagens comuns e locais, na seguinte trecho do romance de Villas Boas: “Quando o garçom entregou o cardápio, ela riu: ao abri-lo viu que era trilingue, os nomes escritos em chinês, inglês e português. / ‘É a primeira vez que eu vejo um cardápio poliglota’, Maria brincou. / ‘Essa deve ser a idéia’, disse Caio” (p. 142). E “Caio” diz isso sem sequer desconfiar que existem “certas idéias” ― como mesmo comenta o narrador, com pertinência, noutra história paralela ― “que pervertem as relações entre pessoas, até que elas passam a odiar com base nesse mesmo sistema” (p. 159).

Mas este episódio, envolvendo os amantes Caio e Maria, não é o único no romance de Lincoln Villas Boas a indicar as consequências da modernização econômica no labiríntico “Paraíso das Águas” alagoano. O desencantamento do mundo decorrente desta também se encontra representado, literariamente, no seguinte trecho em que o narrador observa o céu noturno com “A MULHER” (maiúsculas do autor, p. 30). Uma mulher tão desterritorializada subjetivamente, pelo “terrorismo das relações interpessoais” (p. 134), que até já o fitara “aérea” (p. 26) como se ele fosse “um extra-terreno” (p. 26), relata o autor. E complementa: “Ela olhou para o céu. Havia alguma coisa lá? Olhei também e vi a lua em quarto minguante. Nada demais. Estrelas dispersas, jogadas a esmo, numa espécie de semeadura cósmica sem regras.” (p. 32)

Neste reencontro fortuito com o narrador, numa exposição de arte abstrata, esta mesma mulher lhe comunica, com alegria triste, que finalmente estava “livre”. Livre da convivência diária “com a pior face da loucura, a que causa horror e incita ao medo.” (p. 32). E este foi o modo mais delicado que ela encontrara para lhe dizer que o marido, seu perseguidor enlouquecido e furioso, havia morrido tragicamente.

Sendo um literato apaixonado pelo cinema, neste ponto de sua narrativa romanesca, Lincoln Villas Boas destila uma criatividade literária tipicamente pós-modernista que parece querer, desta vez, aludir de modo implícito ao A Dama de Vermelho: um filme de Gene Wilder que foi grande sucesso de bilheteria nos idos de 1980. Mas parodiando-o radicalmente às avessas, ele escreve: “REVI A MULHER algum tempo depois. Ela parecia estar de luto: emagrecida, perdera a cor. Usava um vestido preto, comprido e estranho, como se fosse emprestado e não lhe pertencesse. (…) ‘Quando a vi hoje, pensei logo que estivesse de luto’, comentei. ‘Seu vestido preto…’ / ‘Não é meu’, ela esclareceu, baixando a voz. ‘Uma amiga me emprestou. Meu ex-marido ateou fogo à casa… Apesar da polícia. Quase todas as minhas roupas queimaram… Graças a Deus as crianças não estavam lá’. / ‘Sinto muito’, falei (p. 30-32).

Mas no Labirinto lincolniano, a interação que o narrador onipresente estabelece com a realidade socialmente construída numa capital alagoana já plenamente globalizada, não é, nem de longe, parecida com as dos querubins javeicos. É, sim, idêntica à postura metodológica de antropólogos em sociedades complexas a produzirem suas etnografias sobre estas. Daí porque Villas Boas, na privilegiada condição de autor onipresente, escreve: “Comecei a observar tudo como se estivesse num lugar estranho. […] Fiquei olhando as pessoas e escutando seu palavreado. […] Vi Tiago lançar [para o garçom] um olhar de cobiça lamentosa” (p. 214, 33 e 118 respectivamente). E, em seguida, infere de modo reflexivo sobre o que ouve e vê. Mas não, exatamente, como se fosse um dos “homens de bloquinho” (p. 163) ― como representa, no romance, os investigadores policiais em serviço: “Não estamos imunes às falhas que nos penalizam. Não há por que rir, lamentar ou odiar, mas o que compreender. E é possível viver segundo o princípio de que não existem erros e sim aprendizagens. Além do mais, deve-se sempre estar atento às diferenças” (p. 41). E complementa: “As diferenças são importantes”… (p. 67)

Note-se, portanto, como este mesmo narrador multiculturalista nos conta sobre a ação de um jovem estrangeiro e sedutor que sobrevive, em desamparo, praticando arte de rua: “A CANÇÃO ERA ‘Les Mots d’Amour’, mas não a reconheci a princípio. Só depois. O tocador de gaita revoluteava entre as mesas, arrancando do instrumento seus sons esganiçados. Demorei a me acostumar com a pantomima, porém, toda a minha atenção se voltou para ele. Sua camisa colorida compunha com a calça jeans desbotada uma fantasia útil para quem quer ganhar uns trocados. Seu aspecto de emigrado italiano, sua esbanjada beleza perversa, fazia pensar em excentricidades e não em mendicância” (p. 26).

Na mesma cena social, este narrador onipresente também nos conta sobre a sua interação, altamente simbólica, com “A MULHER” (p. 30) pouco tempo antes de reencontrá-la numa mostra de pintores “abstracionistas” (p. 31). Na ocasião, como já vimos, ela é também representada como uma mulher anônima e “aérea”, que se aproxima dele no lado de fora de um bar, se comunicando de um modo estranho. Isto é, “como se as palavras nada tivessem a ver com o que dizia” (p. 27). Na narrativa minuciosa da comunicação perversa estabelecida por ela, à revelia de si própria, ela vai se revelando, aos olhos dele, tão desguarnecida neste mundo quanto “o tocador de gaita” (p. 30): “Ela deu meia-volta, mecânica e rapidamente, e afastou-se. Via-a acenar e um táxi parou. Ela entrou e desapareceu numa curva à esquerda” (p. 28).

Esta última frase é uma das que evidenciam a centralidade da metáfora labiríntica muticursal, no livro de Lincoln: um narrador de fato onipresente que, por isso mesmo, se transforma numa espécie de “chaveiro” (p. 28) do conhecimento humano, enquanto faz de si um olheiro de Deus no “Paraíso das Águas” (Maceió). Isto é, um observador divino (ou divinizado) que, de um ponto de vista central (ou panóptico), vigia a humanidade alagoana sem puni-la. E faz isso para produzir, em Alagoas, um testemunho literário da “história da afetividade” (p. 107) numa Maceió labiríntica. Ou seja, numa cidade com caminhos tortuosos percorridos por seus habitantes nas suas interações sociais. Caminhos estes, na maioria das vezes, cheios de problemas de recursão e rotas mínimas existentes, por exemplo, nas confusas trajetórias de vida dos que se descobrem “fortemente vocacionados para viver histórias ‘malucas’” (p. 199). E, por concebê-las equivocadamente assim, fazem sempre um “pacto” selando este “com um brinde”… E ofazem, segundo ainda a observância crítica do narrador, como se estivessem “num daqueles filmes de terceira categoria” (p. 199). Aqueles mesmos em que signos e símbolos como “gaita”, “roscas” e “anéis de fumaça” (p. 154), por exemplo, são investidos de significado pornoerotizado. Ou “sodomítico”, como dizem os evangélicos. Atores sociais estes, aliás, que são também observados no Labirinto lincolniano: “A verdadeira religião era a deles, diziam, e as frases cantadas era incompreensíveis. Marcelo começou a se sentir vazio” (p.78).

Ora: no Labirinto do mundo em Maceió-AL, quase todos e todas estão tão carentes quanto famintos(as). Aliás, compulsivamente famintos(as)… A maioria das mulheres, por exemplo, se comportam sexualmente como se fossem verdadeiras mênades atacando, furiosas, rebanhos de gado. Ou Evas desejosas de provar, gulosamente, dos frutos da árvore proibida: “Ela [Paulina] olhou, rindo, para as entrepernas dele [Iuri], onde havia um montículo. Aproximou-se, inclinou-se e o beijou, devorando seus lábios” (p. 34). Com esta atitude, Paulina na verdade tenta preencher um vazio existencial que ela detecta em si mesma, dizendo a seguinte frase femininamente sintomática, do ponto de vista freudiano, que inicia um dos textos: “HÁ SEMPRE ALGO ausente que me atormenta”… (p. 34, maiúsculas do autor). Esta elocução, que sempre ecoa oprimida e opressora, reverberando destrutivamente nas relações heterossexuais, é o que transforma os parceiros heteroafetivos de mulheres como Lídia e Paulina numa espécie de Dionísio[s] crucificado[s] pelas próprias bacantes… Ou melhor, de Cristos apavorados fugindo da crucificação: “Iuri arfou, os braços abertos em cruz. Sentiu o gosto do cigarro. Seus olhos estavam arregalados. Afastou-se.” (p. 34)

Já os gays, por sua vez, não se encontram menos famintos e furiosos que as mulheres. Como já vimos, eles se posicionam “no limiar da explosão” supostamente sodomítica. Inclusive quando chegam às vias de fato desta “explosão”, não por acaso esta acontece num restaurante: “Certamente a história não é passado”, comenta de modo teórico o narrador. E complementa conceituando: “O passado é aquilo que se desintegra à proporção que fazemos progredir nossa história” (p. 133). E isto porque, de acordo com o autor de Labirinto ― que atua profissionalmente como psicólogo e psicanalista, sem abrir mão dos estudos bíblicos para a prática também de uma “psicologia antiquária” (BILLIG, 2008, p. 47)[5] inclusive em literatura ―: “Se o individual é coletivo, os mitos enraizados nos costumes são aqueles que preservam o suporte de seus mantenedores” (p. 144). Costumes estes milenares que a maioria de seus mantenedores maceioenses preservam cotidianamente, ao ponto de banalizarem a violência e os assassinatos impunes de homossexuais no Estado de Alagoas: um lugar que já se tornou, no Brasil, recordista reincidente em crimes de homofobia.

Neste contexto sócio-histórico (que, aliás, é também o mesmo do programa governamental petista Fome Zero), vejamos com que tipo de discurso, ou script cultural, “Patrício” ― um investigador de homicídios, “há 12 anos, desde que ingressou na polícia” alagoana ― processa cognitivamente os dados de um crime supostamente homofóbico. E notemos também, principalmente, com que estado emocional ele o faz: “‘Tive de largar meus estudos de árabe’, disse Patrício, fazendo um gesto com a mão. ‘La ilaha illa-Allah Muhammadum rasulu’, ajuntou, sorrindo. / ‘O que é isso?’, perguntei. / ‘Alá é o único Deus e Maomé é seu profeta’, ele respondeu depois de beber um gole de campari com soda. ‘Foi uma das primeiras frases que aprendi. Eles escrevem no sentido contrário ao nosso’. / ‘Eu sei’, falei. / ‘É uma invariante?’, disse. ‘Não sei por que estou falando disso… Encontramos ontem outro rapaz. Quase morto dessa vez. Está na UTI. […] / ‘Quando ele vai poder falar?’, perguntei. / ‘Quando acordar’, ele respondeu, começando a tamborilar na mesa. ‘Esse jantar não vem? Meu estômago está dando nó’. / ‘Mas você já devorou toda a entrada’, falei. / Ele olhou para a mesa, sem acreditar que devorara tudo” (p. 22-23).

Vejamos também no seguinte trecho, do Labirinto lincolniano, como esta realidade alagoana é socialmente construída através das interações simbólicas que são produzidas no dia-a-dia de um jornal em Maceió: “Felipe sentou na mesa e inclinou-se. Baixou a voz: / ‘A polícia não está dando a mínima’, disse. ‘Os caras eram gays’. / Passei as folhas do bloco de notas. / ‘A briga foi passional… Eles [os homossexuais Hugo e Alfredo] usaram as facas e garfos disponíveis sobre a mesa do restaurante. Ficaram como aqueles gladiadores da Roma antiga, um arrancando os pedaços do ouro antes de se matarem’, comentou Felipe sério. / ‘Não seja tão irresponsável’, falei, sem levantar a cabeça nem tirar os olhos do bloco. / ‘Tô me lixando’, ele disse e saltou da mesa. Afastou-se, deixando no ar um odor de cedro, forte, quase insuportável. Levantei-me e abri a janela. Respirei fundo. Voltei para organizar as notas. Elas deram num texto de quatro páginas e meia, datilografado em espaço um e meio. Quando eu li o último parágrafo, Roxane entrou com uma barra de chocolate em cada mão. Levantei a cabeça. / ‘Quer um chocolate?’, perguntou ela. / ‘Não, obrigado’, resmunguei. / ‘Hum, o que tem aí?’, ela curvou-se para ler a primeira página do texto. Lambeu os dedos. ‘Está cobrindo enterros agora? Ora vejam! Você anda mórbido… Se bem que um toquezinho de perversão não faz mal a ninguém’. / Não respondi. Puxei a última página da máquina. / ‘Eu, heim!’, ela exclamou. ‘Tem certeza que não quer mesmo chocolate?’ / ‘Tenho’” (p. 48).

É interessante notar, neste trecho do livro, que, na labiríntica Maceió de Lincoln Villas Boas, a violência é tão sintomática e difusa que se deflagrada até mesmo entre “gays” assumidos e bem-sucedidos, com mais de trinta anos e há muito enlaçados, como Hugo e Alfredo: “Nenhum dos dois sabia mais quem iniciara o episódio funesto que só terminara com a intervenção da polícia. Tampouco conseguia se ressituar perante o motivo da briga. Entretanto, as marcas da fúria que se apoderou deles estavam em seus corpos” (p. 50), escreve Villas Boas.

Já no caso de Celso e Erasmo, dois jovens universitários que de repente se descobrem apaixonados, tal violência se insinua de modo simbólico logo nos inícios da relação dos dois como uma espécie comumente insuspeitada de “homofobia” que se manifesta no homossexual que recusa, em si mesmo, a pulsão homoafetiva. Como, por exemplo, o personagem Celso mais exatamente. Um fenômeno tão curioso e incompreensível, para o senso comum, quanto o “machismo feminino” (p. 175) em mulheres ultraliberais como Marta; a “complacência masculina” (p. 175) de homens românticos como Fernando e Charles Hautecourt. Ou, ainda, a “corrupção da misericórdia” (p. 183) por aqueles mesmos que se compadecem do outro, como a estudante de medicina Geneviève, em Le Repos du Guerrier, de Christiane de Rochefort.

Mas refletindo agudamente sobre tudo isso, o autor de Labirinto nos oferece uma reflexão crítica sobre identidade e cultura, no contexto pós-moderno, se referindo aqui e ali à literatura e a filmes de sucesso. Não é por acaso que, como Dostoiévski e Conrad, Lincoln Villas Boas também optou por nos mostrar certa “armadilha da falsificação” (p. 182) e sua estruturação intrincada. Só que, por sua vez, configurando-a borgianamente como um “Labirinto”. Isto é, uma arapuca espelhada na qual todos nós ― ao mesmo tempo e sem exceção ― somos Teseu, o fio de Ariadne e o Minotauro. E ainda por cima, o que é mais curioso, seus antigos construtores e suas vítimas mantenedoras nos dias atuais… Apenas nos diferenciando uns dos outros, nessa tortuosa prisão, por uma questão de ênfase dada por cada um de nós nesse ou naquele elemento do mito grego. O que implica a constatação de que o “Labirinto” psicossocial representado literariamente, por Villas Boas, é dedálico. Isto é, não é unicursal ou espiralado. Nem tampouco de sebes vivas para o entretenimento privativo em graciosos jardins burgo-aristocráticos. Ele é, portanto, primitivíssimo e sombrio como o inconsciente coletivo. Mas, para nossa sorte, no luminoso livro de Lincoln, ele pode se transformar, dependendo do tipo de leitura que façamos dele, num potente mapa dos nossos desejos mais profundos encenados no cotidiano.

Sabedor translúcido disso, a pergunta-chave e desafiante que Villas Boas parece nos fazer, nas entrelinhas de seu livro, induzindo-nos a essa constatação, é: “Quem mais, além do narrador onipresente, demolirá o labirinto dedálico do mundo em Maceió-AL?”[6]


Ricardo Maia

É alagoano de Maceió, mestre em psicologia social pela PUC-SP, crítico de arte e autor do livro Maceyorkinos: ensaios de crítica cultural à Maceió-artística glocalizada.


Referências

ADORNO, Francisco Paolo. A tarefa do intelectual: o modelo socrático. In: GROS, Frédéric (org.). Foucault: a coragem da verdade. São Paulo: Parábola, 2004.

BILLIG, Michael. Argumentando e pensando: uma abordagem retórica à psicologia social. 1ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2008. Col. Psicologia Social.

CARTORIADIS, Cornelius. O mundo fragmentado: as encruzilhadas do labirinto / 3. 1ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

COSTA, Marcos de Farias. Coisas & Loisas: volume I. 1ª ed. Maceió: Sergasa, 1988.

DANIKEN, Erich Von. Eram os deuses astronautas? 50ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 2000.

GUTEMBERG, Luiz. O anjo americano. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

IVO, Lêdo. Ninho de cobras. 4ª Ed. Maceió: Catavento / Fundação Municipal de Ação Cultural, 2002.

TAVARES, Gonçalo. “O tempo é o formador da cultura”. Revista Cult: dossiê mal-estar na cultura, São Paulo, ano 15, n. 168, p. 36-39, maio 2012. Entrevista concedida a Guilherme S. Zanella.

VILLAS BOAS, Lincoln. Labirinto. 1ª ed. Curitiba: HD Livros, 1999.

VILLAS BOAS, Lincoln. Testemunhos do vivartismo: escritos de intervenção cultural da Maceió-artística da pintura (1992-2004). 1ª ed. Maceió: Catavento, 2006.


[1] É alagoano de Maceió, graduado em psicologia e mestre em psicologia social.

[2] Ver deste filósofo e psicanalista grego o livro de filosofia O Mundo Fragmentado: as encruzilhadas do labirinto / 3 (Ed. Paz e Terra, 1992).

[3] Ver também de Castoriadis A Instituição Imaginária da Sociedade (Ed. Paz e Terra, 1991).

[4] Escrevendo sobre “A tarefa do intelectual” que incorpora o “modelo socrático” de postura cognitiva, Francisco Paolo Adorno (2004, p. 40-41) nos informa que: “[…] segundo Foucault, o intelectual universal de esquerda, representando a consciência de toda a sociedade, era o detentor e o portador da verdade e da justiça, ele possuía uma visão global da sociedade que lhe permitia discernir o verdadeiro do falso. Uma visão que, passando pela defesa dos cidadãos, mais fracos, visava alcançar uma sociedade justa e igual para todos”.

 [5] Segundo Michael Billig (2008), que é considerado um dos maiores especialistas em psicologia social contemporânea, o “psicólogo antiquário” é um caçador de recordações que sofre de uma incontrolável ansiedade de vagar do laboratório para a biblioteca. Nesta, ele procura psicologias mais antigas e deixa para o colega, que seja psicólogo moderno, o trabalho de rastrear referências mais recentes. Por tudo isso, de acordo com Billig (2008) ainda, ele não mostra desprezo pelo passado. Muito pelo contrário, o que ele faz é atacá-lo deliberadamente desencavando relíquias de antigos pensadores. E ele o faz encantando-se ao encontrar fragmentos estranhos. E preconiza, do seguinte modo, a respeito dessa categoria identitária de psicólogos: “Os antiquários resistirão assim àquele impulso de modernizar tudo que seja encontrado. Sem estarem convencidos de que a modernidade é totalmente satisfatória, os antiquários lançam-se a seus ataques na esperança de preservar as relíquias do passado e de exibi-las ao lado das possessões modernas.” E acrescenta: “A justaposição do velho e do novo pode revelar as limitações desse último de uma forma que seria impossível se estivermos total e inconscientemente imersos na ânsia de modernidade.” E dizendo mais sobre “o antiquariato” em psicologia, ele conclui: “Os tradicionalistas podem ter se perturbado na virada do século com o choque do novo, mas hoje, na teoria psicológica, com a tradição praticamente abolida pelo espírito científico da modernidade, pode haver espaço para os choques mais suaves do velho.” (BILLIG, 2008)

 [6] Essa proposta instigante de Lincoln Villas Boas (1999), pressuposta aqui, é certamente aquela dirigida apenas aos leitores altamente interativos. Isto é, àqueles que são capazes de criticar e participar no ato da leitura de um livro. Dizendo de ouro modo, um tipo de leitor que está implicado no ato da “construção literária” tanto quanto o autor do livro que ele lê. Pois como argumenta o escritor lusoafricano Gonçalo Tavares (entrevistado por ZANELLA, 2012, p. 38), autor do premiado Jerusalém – Caminho (companhia das Letras): “[…] o livro é escrito em duas partes, por duas pessoas, digamos assim. A que escreveu e a que o lê”. Ainda na teoria de Gonçalo (ibidem), o autor é uma espécie de combatente que propõe a estória. Diante dele, portanto, o leitor não pode ser passivo. Porque, se o for, torna-se fatalmente “um animal domesticado”. Gonçalo (ibidem) diz ainda que ao ler o livro de um autor, ele entra definitivamente num processo participativo de metaelaboração (ou escrituração paralela) deste para concluir a estória contada nele; dando assim, portanto, continuidade a um “jogo que se inicia com o autor, quando propõe no livro seu universo.” E Gonçalo acrescenta em conclusão: “Ler um livro é também é criá-lo [sic] em cima de sua própria interpretação. Como a interpretação numa se repete, o processo de participação também é único, e cada leitor vai entrar nesse combate com ambições diferentes, com intenções diferentes.” (TAVARES, 2012, p. 38)

1 comentário

  1. Iranei Barreto, mais uma vez fico muito grato à vc por mais esta (re-)publicação, de um texto meu, em seu badalado blog AquiAcolá. Vida longa e sempre próspera pra vc e ele❣😘

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