Dossiê Fotografia Alagoana

Dilma de Carvalho e Ducy Lima – fotografia e amizade

A paixão pela fotografia de rua, da arte como iniciativa social e a simpatia pelo registro do cotidiano são alguns dos muitos pontos em comum das fotógrafas Dilma de Carvalho e Ducy Lima, integrantes da 5ª edição do Dossiê Fotografia Alagoana, série de matérias especiais do Blog Aqui Acolá que já está na sua segunda temporada. Além disso, as duas se conheceram num curso de introdução à fotografia e iniciaram os estudos e atividades praticamente no mesmo período. O Aqui Acolá conversou com as duas a respeito do que pensam sobre a fotografia alagoana.

Dilma de Carvalho


Alagoana de Maceió, Dilma de Carvalho encontrou na fotografia uma forma de terapia e a transcendeu para uma maneira de expressão de sentimentos e olhares direcionados ao mundo. Com pouco mais de três anos de atividades com a câmera, ela conta que o primeiro contato veio através de um convite especial. “Sou professora e quando eu estava muito angustiada e cansada desse meu trabalho, aceitei o convite do amigo fotógrafo Jorge Vieira para fazer a primeira oficina Fotografando Poesia”.

Formada em Letras com Especialização em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Dilma além de participar das três primeiras edições da Oficina Fotografando Poesia, frequentou alguns workshops promovidos pelo Coletivo Perambular Fotográfico. “Em 2019 fiz um curso no IFAL (FOTOIFAL) sobre empoderamento negro na fotografia com o Professor Gregory Aguiar e em seguida, quando comprei uma câmera Canon bem básica, fiz aulas particulares com meu mestre Jorge Vieira”.

A partir daí, suas mãos viviam cada vez mais com a câmera e seus olhos olhando através das lentes. “Gosto de fotografar cenários reais, as cenas urbanas, o cotidiano, o movimento da vida simples”, revela. “Mas por causa da influência dessa primeira oficina, descobri que gosto muito também de produzir ensaios com temas propostos por poemas, a partir de um texto literário, pois a poesia pode ser retratada de várias formas que não somente o texto escrito”.

Ela conta que no início fotografava de maneira mais impulsiva. “Sempre gostei de arte mais por intuição do que por conhecimento científico delas. Comecei fotografando com um celularzinho LG, bem básico e bem velhinho”, lembra. “Porém, também intuitivamente, fotografei usando a regra dos terços, fazendo jogos de luz e sombra, preenchendo os espaços proporcionalmente, etc. Gosto da fotografia em Preto e Branco e tenho estudado as técnicas para poder ter a liberdade de desconstruí-las, reconstruí-las e/ou ressignificá-las”.

Suas influências fotográficas também remontam à utilização do preto e branco como referência artística. “Desde jovem ouvia falar em Sebastião Salgado e tudo que via dele me encantava. Quando comecei a frequentar as exposições aqui em Maceió, passei a conhecer nossos talentos e acabei tomando-os como referência para mim”, comenta. “Dentre eles o Jorge (Vieira), João Facchinetti, Celso Brandão (que já é ícone há muito tempo), Arthur Celso, Alberto Lima, hoje me encanta muito trabalhos como da Gabi Coêlho, Amanda Bambu, Luna Gavazza, entre tantas”.

Mas segundo ela, atualmente tomando como norte o caminho desejado por ela da fotografia documental, de rua e o fotojornalismo com viés humanista, quem mais tem lhe influenciado são nomes como Nair Benedicto, Evandro Teixeira, Ratão Diniz, João Roberto Ripper e Luiz Baltar. “Todos eles eu passei a conhecer mais a partir do Festival FOTOSURURU, daqui de Alagoas”.

A questão literária, tão presente na vida de Dilma, também é refletida em suas fotos. “Como comecei fazendo fotografia instigada por poemas, fiz muitos ensaios com seis fotos, tentando encadear uma narrativa, apresentando um processo criativo mais voltado para a foto artística”, conta. “Mas, tenho feito e me envolvido muito com a fotografia documental, registrando o cenário de guerra em que tem se transformado nossos bairros em Maceió afetados pela mineração irresponsável da Braskem, de suas associadas e dos órgãos públicos que administram e não fiscalizam”, desabafa.

Poética Própria -Quem Sou- Fotografando Poesia (2021) | Dilma de Carvalho
Poética Própria -Quem Sou- Fotografando Poesia (2021) | Dilma de Carvalho
Poética Própria -Quem Sou- Fotografando Poesia (2021) | Dilma de Carvalho

Durante esse período de estudos e prática do final de 2018 até agora, Dilma de Carvalho integrou algumas exposições coletivas na cidade. “A primeira foi a Mosaico Sururu (foto única), depois vieram a Fotografando Poesia e Narrativas Poéticas (frutos da Oficina Fotografando Poesia – ensaios com seis fotos), Urbanidade (tríptico), Fragmentos’19 (foto única elogiada por Celso Brandão), Ubuntu (foto única – FotoIfal)”.

Mais recentemente, uma foto sua foi selecionada para participar de uma exposição sobre Fotografia Preta dentro do festival alagoano Fotosururu, mas o evento foi suspenso por causa da Pandemia em 2020. “Além dessas, tenho oito fotos no Projeto Ruptura que fez intervenções artísticas de 12 fotógrafos em muros nos Bairros do Pinheiro e Bebedouro. E meu mais recente feito foi ter sido escolhida para leitura de um ensaio de 15 fotografias enviadas para a convocatória do Projeto Métis, viabilizado pela lei Aldir Blanc. Esse último ensaio foi feito na Escola Municipal Edécio Lopes, no Pinheiro, que se encontra em ruínas”, revela. Alguns de seus trabalhos também podem ser vistos em seu instagram (@dilma.de.carvalho).

Para ela, apesar das dificuldades do mercado da fotografia artística em Maceió, os movimentos propostos pelos próprios artistas impulsionam e divulgam a fotografia e seus artistas. “O cenário parecia que ia melhorar com a chegada do Festival Fotosururu, que trabalhou bem a visibilidade para a fotografia alagoana, mas veio a Pandemia e parou tudo”, cita. “Agora, mesmo que de forma virtual, temos a Casa Alagoana da Photografia – CAPh, que chegou para abrir mais espaço, mapear quem somos e visibilizar a produção alagoana em todos os seus segmentos”.

Dilma foi eleita a Coordenadora Social da CAPh e, segundo ela, muitas ações serão desenvolvidas em breve. “Estou muito orgulhosa do que a CAPh já começou a fazer um Grupo de Estudos, mediado por Francisco Oiticica, e a organização de Grupos de Trabalhos que vão estimular o conhecimento, o reconhecimento e o compartilhamento de ideias entre os/as fotógrafos/as alagoanos/as”.

Atualmente, Dilma está empenhada em projetos documentais. Um deles é a continuidade do Projeto Ruptura, uma intervenção urbana com fotos da tragédia socioambiental que recaiu sobre os bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto; além do site contendo mais informações e depoimentos dos participantes. “O outro é um projeto gigantesco, liderado por João Facchinetti, que está intitulado ‘Autores Felizes’, destinado à formação e confecção de fotolivros com produção de artistas locais”.

Ducy Lima


Ducy Lima também é maceioense e, da mesma forma, começou fotografando através do celular, registrando e documentando aquilo que a inquietava positiva e negativamente em seu cotidiano. Já em 2019, inscreveu-se num curso de extensão de introdução à fotografia promovido pelo Instituto Federal de Alagoas, o FOTOIFAL, com as temáticas empoderamento feminino e empoderamento negro. “Nesse curso conheci Dilma e a partir daí passei a usar câmera fotográfica também”, diz ela.

Durante esses dois anos de atividades, Ducy revela que continua gostando de retratar o cotidiano em suas imagens, com isso veio também o gosto pela fotografia de rua e a simpatia pela fotografia documental. “Não sou muito ligada às técnicas, na minha opinião, o mais importante é conseguir expressar o que você quer comunicar, mas me atrai a liberdade poética da fotografia artística”, afirma. Além do estudo da fotografia, Ducy é funcionária pública e iniciou a faculdade de Ciências Sociais na Ufal, trancada atualmente.

Ensaio Tentativas 1 | Ducy Lima
Ensaio Tentativas 2 | Ducy Lima
Ensaio Tentativas 3 | Ducy Lima
Ensaio Tentativas 4 | Ducy Lima

“Minhas inspirações são baseadas nos trabalhos de fotógrafas como Vivian Dorothy Maier, Nair Benedicto, Elza Lima e as alagoanas Andréa Guido e Luna Gavazza”, revela. “A fotografia de rua e do cotidiano é uma paixão não comercial prazerosa que me proporciona trabalhar em projetos de cunho social fantásticos, como auxiliar de fotografia no projeto Multicolorir o Outubro Rosa, dos fotógrafos Aline Oliver e Gregory Aguiar; fui voluntária na organização do Projeto mandaver.art e atualmente no Projeto Ruptura – moradias e vidas rachadas, este último como fotógrafa”. 

Já integrou duas mostras coletivas de fotografia: a primeira exposição foi a Ubunto, no restaurante Baobá e a segunda foi a Fragmentos’19, promovida pela agência Fragma. “Também estaria na Fragmentos’20, mas por causa da pandemia não houve exposição. Além disso, uso o instagram para mostrar meu trabalho (@ducylima) ”.

Sua fotografia intitulada “Suspensão do tempo” foi classificada com menção honrosa na convocatória do festival Fotosuru 2020 na categoria foto única. Este trabalho compõe ainda a exposição virtual no Instagram do festival (@fotosururu).

Ainda em relação ao momento vivido decorrente da pandemia, Ducy comenta a dificuldade para a manutenção das atividades. “No cenário atual está complicado economicamente, mas vejo também superação por meio de ambientes virtuais, como exposições, festivais, lives e cursos”. 

Atualmente Ducy Lima, assim como Dilma de Carvalho, integram o Projeto Ruptura além de participarem da coordenação da Casa Alagoana da Photografia. “Aliada à fotografia de rua, também gosto muito de trabalhar com as imagens da nossa cultura popular”, diz ela. “Estou trabalhando atualmente em um projeto autoral com artistas de rua para ser divulgado futuramente”.


Créditos da Foto de Capa: Wilma Marinho

Texto: Nicollas Serafim | Edição e Revisão: Iranei Barreto

Instagram Dilma de Carvalho – @dilma.de.carvalho

Instagram de Ducy Lima – @ducylima

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