Percursos: Narrativas Poéticas da Cidade

O trem para Branquinha

No primeiro episódio de 2021 da série de publicações Percursos – Narrativas Poéticas da Cidade, apresentamos  uma análise crítica feita pelo psicólogo e crítico de artes, Lincoln Braga Villas Boas, sobre o livro “Um trem para Braquinha“, do escritor alagoano Gustavo Maia Gomes.

Capa do livro “Um trem para Branquinha”, de Gustavo Gomes | Créditos: Divulgação

Texto de *Lincoln Braga Vilas Boas

OTTOLMY STRAUCH, na Introdução a Os princípios de economia de Alfred Marschall cita Sigmund Freud em epígrafe: “A verdade biográfica é indevassável.” Trata-se de uma citação de correspondência de Freud com Arnold Zweig.[1] Esta afirmação pode ser tomada também como verdade se a transpomos para um sentido memorialístico, embora se deva assinalar que a documentação de referência, muitas vezes, não se trate de autorreferência. Trata-se da vida dos outros e seu contexto, seja familiar ou não. Gustavo Maia Gomes esclarece em seu livro, na abertura introdutória:

Neste livro identifico homens e mulheres – parentes meus já mortos – e conto histórias vividas, quase todas, no Nordeste canavieiro, compreendendo esse não apenas o universo rural da região, mas também as cidades. Fiz o máximo de esforço para localizar a história de cada pessoa no quadro maior das estruturas sociais que lhe circundavam e dos eventos importantes (especialmente políticos) que lhe foram contemporâneos. Também dei destaque aos encontros fortuitos ou sistemáticos dos meus familiares com gente que já era ou se tornaria conhecida do público geral. Dessa forma, ao mesmo tempo em que juntava fragmentos biográficos de ancestrais, fui montando uma história social, econômica, política e de costumes (aqui contada de forma peculiar, reconheço) do mundo canavieiro-açucareiro nordestino, especialmente, entre os anos 1870 e 1950 (MAIA GOMES, p. 17. Grifo do autor.)

E segue adiante com mais esclarecimentos que certamente tem uma serventia inequívoca para o leitor: “Meus ancestrais, como toda a gente, tinham uma história pessoal a escrever. Ao fazê-lo, ajudaram a produzir os processos mais amplos que, ao mesmo tempo, lhe conduziram a existência” (MAIA GOMES, p. 25. Grifo meu.) Daí por diante, suas intenções se mesclam dos mais convergentes aportes. O primeiro possui uma feição etnográfica, pois que toma como base a reconstituição tão fiel quanto possível do modo de vida de homens e mulheres, em sua especificidade, seguindo uma ordem no tempo.[2] Por outro lado, ele inscreve sua narrativa numa dimensão diacrônica, ou seja, ordenada no tempo, ou seja ainda, ela possui uma validade histórica nas reconstruções. As coordenadas espaciais e temporais se projetam na maneira como os elementos foram coligidos e relacionados uns aos outros.[3] E se acrescente que os fatos colhidos são apresentados em conformidade com exigências que se propõe a um historiador, mas que se inscrevem no gênero das memórias com os comentários pessoais e diretos aqui e ali, circunstancialmente evocados, pois o tom é claramente memorialístico. E é a memória que permite ao homem se comunicar com o passado. Presos a um presente puro, carentes de nossa história, nós a temos história diminuída, reduzimos nossa identidade e perdemos a realidade (MATOS, 2010).[4] Junta-se a isso a intenção de Maia Gomes, quanto a localizar, de referir-se a um espaço de vida não  somente no plano da história e da biografia, mas também projetando uma espécie de via genealógica da ascendência e relações familiares, a origem e a procedência. Mas envereda pelo plano, às vezes, folhetinesco, enfocando as vinganças, as brigas familiares e as assinaladas mudanças de nomes como índices aparentes de novos direcionamentos na vida, incluindo uma evolução de poder e mando que vai do apogeu à decadência.          

A Parte V de O trem para Branquinha, com o título de Honra, Terra e Açúcar oferece um percurso deveras interessante dos municípios alagoanos desde a época dos banguês, engenhos e a instalação das usinas de açúcar, passando pela vinda da estrada de ferro que trouxe certas facilidades e progresso. O século XIX se projeta no início do século XX, com as observações de Maia Gomes pontuando com visível ironia a grandeza e a decadência da região. O florescimento do comércio trazido pela estrada de ferro a Great Western do Brasil Railway, fazendo convergir as produções mais diversas, também incentivou a mobilidade da população. Maia Gomes pontua que “a chegada do trem foi um acontecimento de profundas mudanças econômicas, que acelerou dramaticamente as mudanças já em curso”, (TB, p. 299). Mas, já se projetava daí outras mudanças profundas no que se refere às propriedades e seus donos. É interessante considerar as idas e vindas no foco narrativo dessas memórias e sua forma de composição, em especial desta parte, em que há várias intervenções do autor, trazendo o passado ao presente, voltando ao passando e projetando o futuro como uma espécie de maldição inescapável. Apesar de toda a aceleração dramática das mudanças, o curso desse progresso se esbate em particularidades familiares dos proprietários. O autor, refere que “[eram] demasiados os herdeiros das regiões do açúcar, não apenas de Alagoas, mas do Nordeste, e a cana não sustentaria a todos. Nem o gado” (TB, p. 304). A aproximação da decadência vem insidiosamente. E segue o autor adiante fazendo menção ao fato de que “[os] que ficavam – os proprietários e os usineiros – iam levando a vida, ricos, alguns, em termos relativos, endividados, todos, muito além das possibilidades de pagamento proporcionadas por seus negócios” (TB, p. 304. Grifos meus).          

Interessante considerar aí, em toda essa Parte V, quando o autor ao longo de seu relato monta um painel que o envia ao ofício do pintor ou do escultor e faz lembrar as vias de operar as lembranças e documentos coligidos que noticiam a história e a memória. De um lado, opera per via de porre, a saber, vai pondo as cores e os contornos onde antes não os havia sobre um branco liso a documentar; em troca, procede também per via de levare, tirando dos fatos o embaçamento que lhes encobre a superfície do significado neles contido. As notas a cada parte e capítulo mostram esse percurso, vastas e esclarecedoras e com certos envios e deduções dentro dos parâmetros da construção de uma história e memorialística. Nos capítulos que se sucedem, os saltos são significativos, pela via da temática. Um capítulo inteiro[5] é consagrado a sérias desavenças familiares, pontuadas por traços de caráter que o autor nomeia, e tem como consequência um assassinato a facadas, trocas de tiros e outros aspectos que, no relato, indicam, ou sinalizam um dos motivos da decadência e das perdas ao longo da história. Quem viveu na região quando havia progresso, produção e comércio não reconhece o estado em que ficou após a severa decadência.[6] “Os ressentimentos de alguns […] primos e tios […] vinham de longe. E a reação dos ressentidos não podia ser ignorada” (TB, p. 355-56). O autor investiga o campo das possibilidades e derivações das desavenças. A conclusão do capítulo é desanimadora, a referência a “uma terra devastada, onde não há sinal de atividade econômica e boa parte da população sobrevive de transferência de renda, sem nada produzir” (TB, p. 361). Esta e outras observações pertinentes do autor que percorrem todo o relato, estabelecendo relações quanto a região enfocada e as motivações sócio econômicas de seu progresso e decadência, têm fundamentos históricos num enquadre de repetições gradativas, mas que também enfocam mudanças que podem ser percorridas ao longo de uma História geral do Brasil. O que Maia Gomes faz é especificar os contornos de uma região e tornar claro um padrão de desenvolvimento, de organização econômica/comercial, de mando e de utilização e mão de obra na produção. O estudo de Alberto Passos Guimarães, importante para a compreensão das relações econômicas no Brasil desde a colonização, é generalizante e evoca uma fundamentação de análise que não considera essas especificidades regionais. Quatro séculos de latifúndio[7] é uma obra mestra para compreensão das relações sócio econômicas e de produção no Brasil que podem ser uma base da qual se pode projetar especificamente para as regiões. Numa edição, certamente revista do estudo em 1981, Guimarães acrescenta um capítulo retrospectivo desde a primeira edição. Há uma observação interessante a considerar:

Compreende-se, à luz da experiência dos países desenvolvidos, que a condição básica de abrir caminho, sem entraves, à revolução tecnológica, é a preexistência de um desenvolvimento intensivo da agricultura por período mais ou menos longo, o que, por sua vez, só pode ter lugar quando precedido por mudanças estruturais profundas […] (GUIMARÃES, 1981. Grifos meus).

A abordagem não deixa de possuir referências básicas para a compreensão do contexto abordado por Maia Gomes, mas a revolução tecnológica, neste caso, foi entravada pela falta de mudanças estruturais “profundas”, mudanças efêmeras que esbarravam no desinvestimento e na irracionalidade administrativa dos donos das propriedades e usinas. Além disso, o declarado esforço para localizar a história, que parte de Maia Gomes, não se reduz às pessoas, mas projeta-se no espaço dos acontecimentos, no enquadre do lugar que eles ocupam, onde se realizam e onde estão as pessoas.

            Ora, o espaço refere a constituição de um lugar, ou de lugares “com os quais a memória individual e a coletiva estabelecem pactos secretos porque possuem o ‘dom da profecia’. Tanto o desenterrado quanto aquele que não deixa seu lugar de nascimento têm muito a contar […].” (MATOS, 2010, p. 137). O passado se projeta no presente sob a forma do discurso ou da escrita documental, da fala ou da escrita das pessoas, que revelam acontecimentos que podem não encaixar no conjunto, como certos depoimento que contradizem um registro histórico ou reforçam ou ainda relatam o que não viveram e se baseiam numa versão oral narrada. Trata-se, nesse caso, de uma pós-memória, “a memória de uma geração seguinte àquela que sofreu ou protagonizou os acontecimentos – quer dizer: a pós-memória seria a memória dos filhos sobre a memória dos pais” (SARLO, 2007, p. 91).[8] E não só dos filhos, mas dos netos e bisnetos e seguintes. A reconstituição tão fiel quanto possível dos fatos e do modo de vida de homens e mulheres em sua especificidade. O que as gerações seguintes lembram vai precisar sempre de uma aferição por seu caráter vicário. Young (2000) se faz a indagação de como “lembrar” o que não se viveu, e essas aspas que assinalam a palavra lembrar apontam um uso figurado. Verdadeiramente, o que se “lembra” é o vivido antes, por outros. “Lembrar” é, portanto, diferente de lembrar, porque Young denomina assim o caráter vicário da lembrança.[9]  Maia Gomes, neste caso, dedica-se, com esforço a revelar suas versões mais plausíveis, procurando descartar a verossimilhança em detrimento da realidade, procurando tornar o vicário ao lugar de onde foi deslocando, tentando desfazer os equívocos possíveis.

            Seguindo para a Parte VI de O trem para Branquinha, o autor resolve dar uma guinada para a História e envia a certo sabor linguístico em sua narrativa. O itinerário percorrido sai de Alagoas para a Bahia, mais precisamente envia a Santo Amaro pela estrada de ferro e a trilha açucareira e passa a um ensaio léxico semântico, tornando um dos personagens um cultor do amor da língua. Trata-se de Alípio Maia Gomes, profissional médico e jornalista. Aí, o autor intercala também episódios históricos, trazendo à baila o abolicionismo, as referências à Guerra de Canudos e à questão do Acre. Mas o capítulo 26, da Parte VI, que tem por título O médico que amava os adjetivos [10]traz uma característica original porque faz um levantamento do vocabulário usado pelo médico, à página 374, e adiante, à página 394, uma lista de expressões possivelmente usadas por ele num provável discurso na comemoração de aniversário de 480 anos de uma sociedade, denominada “Perseverança e Auxilio” que teve grande cobertura num jornal. O discurso possível do médico não é relatado na cobertura da comemoração. Todavia, o autor faz um suposto levantamento.

Não vamos saber o que ele disse, pois isso não nos é relatado, mas podemos imaginar. […] O espírito da época era esse. Anotei aqui as seguintes expressões:
Estimados leitores
Bela e imponente festa
Operosa mocidade do comércio
Benemérita Sociedade
Esforçada corporação
Correta banda musical do Corpo de polícia
Simpática Filarmônica Minerva (TB, p. 194).

Essa listagem de sete expressões é parte das apresentadas à página 194. Seguem mais sete e continua a lista à página 395, com mais quinze expressões. Essa inserção torna o relato divertido, mas dentro da seriedade do que era o cultivo da época dos homens cultos e de formação superior de onde derivava o respeito e a consideração, no que isso também traduzia nas relações uma via de investidura de poder.

O título da Parte VI, Do Campo para Cidade evoca a mobilidade de uma classe cuja condição econômica possibilitava o acesso à informação e o desenvolvimento intelectual, o engajamento político das famílias enfocadas, sobretudo os Maia Gomes que mantinham laços os mais diversos, desde os familiares aos comerciais e parte do relato contido nos capítulos se torna uma espécie e crônica de costumes valiosa para o conhecimento do que vigorava à época considerada.

            Ora, há que se pontuar que O trem para Branquinha possui lances cinematográficos e aportes que dariam uma adaptação para várias temporadas e uma série televisiva. Suas características são de relato memorialístico, crônica de costumes, e história econômica de uma região associada à formação atávica de populações inteiras. Homens e mulheres que deixaram sua marca e foram objeto de estudo do autor, um trabalho de mestre, um valioso levantamento e registros trazem sua marca indelével. Suas observações pessoais de cunho econômico, político e social, inseridas de forma oportuna aqui e ali no relato, traz o traço do espectador incorrigível e familiar, com uma demonstração sui generis de sua veia de pesquisador que sabe fazer convergir todas as abordagens possíveis por seu conhecimento de causa. Uma análise minuciosa de sua produção – são 566 páginas de informação, incluindo notas e material iconográfico – demandaria um estudo longo e aprofundado. E ainda se pode indicar como valiosa obra para consulta e esclarecimento da história de toda uma região que, não por acaso, se situa no Nordeste e, particularmente, em Alagoas onde tudo acontece totalmente diferente do Brasil e do mundo. Essa particularidade é um desafio originalíssimo. As transições históricas, sociais e de desenvolvimento perfazem o campo do nunca visto em lugar algum.


Foto: Lincoln Villas Boas | Créditos: Ricardo Maia

*Lincoln Braga Villas Boas – é graduado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem formação em Psicanálise pelo Centro de Estudos Freudianos do Recife, do qual é ex-membro. Atuou como pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Foi membro do corpo docente do Centro de Estudos Superiores de Maceió, lecionando no Curso de Psicologia. Tem vários artigos publicados em jornais locais, incursionando na crítica das artes cinematográficas, pictórica e literária, bem como em revistas especializadas em Psicanálise e Literatura. Possui Doutorado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Alagoas. É autor do romance Labirinto (1999), publicado pela HD Livros, do livro Testemunhos do vivartismo. Escritos de intervenção cultural na Maceió-artística da pintura (1992-2004), publicado pela Editora Catavento e de sua tese de Doutorado em Letras e Linguística A psicanálise machadiana. Encenações do desejo, publicado pela EDUFAL em 2011. Exerceu a função de Psicólogo na Secretaria Executiva de Saúde, atualmente aposentado.


[1] STRAUCH, O. Introdução. In: MARSCHALL, A. Princípios de economia. Tratado introdutório. Os economistas. São Paulo: Abril Cultural, 1982, v. I., p. vii.

[2] LÉVI-STRAUSS, C. História e etnologia. In: Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 13-40. Trad. Beatriz Perrone Moisés.

[3] LÉVI-STRAUSS, C. Op. Cit.

[4] MATOS, O. C. F. Benjaminianas. São Paulo: UNESP, 2010.

[5] O título do capítulo incluído na Parte V é bastante sugestivo, o Cap. 24: E tudo terminou em trinta e uma facadas.

[6] Essa informação adicional me foi dada por Ricardo Maia, primo do autor, que conhece a história da região, repassada por seus parentes mais próximos.

[7] GUIMARÃES, A. P. Quatro séculos de latifúndio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, 5ª edição. 

[8] SARLO, B. Tempo passado. Cultura da memória e guinada subjetiva. Belo Horizonte: Editora ufmg/companhia das Letras, 2007. Trad. Rosa Freire d’Aguiar.

[9] YOUNG, J. E. At memory’s edge: after images in contemporary art and architecture. New York and London: Yale University Press, 2000.

[10] O assinalamento em itálico ressalta a originalidade

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