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Selo Nº 4 – A Casa-Ateliê de Delson Uchôa 

aqui-acola-seloDELSON UCHÔA | Ainda no clima de recordação dos cinco anos do blog Aqui Acolá, nosso #SeloAquiAcolá5anos Nº 4 desta edição é sobre a estreia da série Ateliê, que inaugurou em grande estilo contando sobre a inusitada relação de Delson Uchôa com sua Casa-Atêlie, localizada na paradisíaca praia de Ipioca, em Maceió.  Considerado um dos mais importantes nomes da pintura brasileira atual, ele vive em permanente estado de arte, onde todo o espaço é sitiado de obras, inclusive o piso é parte do processo em que ele “cultiva telas”. A entrevista aconteceu abril de 2018.

Há quase duas décadas, o alagoano deixou a badalação do Rio de Janeiro para viver em quase total isolamento em Maceió. Segundo ele, inicialmente o retorno à terra natal se deu por conta do crescimento da família, o apartamento na Cidade Maravilhosa ficou pequeno com a chegada do segundo filho. Ele precisava de mais espaço para criar e também sentiu necessidade de reunir suas obras em um único local. Delson diz que quando se deparou com a quantidade de trabalhos que tinha pronto e outros em andamento, decidiu: “Agora, vou me alimentar de mim mesmo”.

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Foto: Acervo pessoal do artista

“Eu acho que esse processo, essa minha volta ao Nordeste, meu pensamento autofágico me fizeram fugir da aluvião globalizada, que começa a ganhar grandes proporções exatamente nos anos 1990 e na passagem do século. Isso foi minha salvação”.

O maceioense se destaca por suas pinturas em telas de grandes proporções, multiplicidade de camadas e explosão de cores e luz, que migram por diversos suportes, em um denso processo artístico talhado na herança, tradição e experimento.

A Casa-Ateliê, o isolamento, viver em permanente estado de arte até para as coisas mais triviais do dia-a-dia, fortaleceram ainda mais seu método e exacerbaram sua percepção de si e do todo. “Foi muito bom ter voltado. O meu trabalho de arte enriqueceu muito com esse retorno”, lembra. Delson mergulhou no seu processo criativo e passou a habitar a própria pintura.

Atento ao seu entorno, Uchôa teve a ideia, a partir de uma demanda domestica, de usar o piso da Casa-Ateliê como suporte para iniciar algumas de suas criações. “O chão é barro batido, e com muito sal da maresia, e eu percebia que quando a Meire varria, todo dia saía barro, como nas casas coloniais. E a Meire não gostava daquilo. Então passei a primeira camada de resina, para selar”, recorda. O processo migrou para sua arte e envolve galões e galões de resina no piso dos cômodos. O cultivo das telas acontece em toda a extensão se ramificando por entre os quartos, salas, escada e corredores das duas residências, que compõem sua Casa-Ateliê.

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Foto: Acervo pessoal do artista
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Foto: Acervo pessoal do artista
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Foto: Acervo pessoal do artista

Depois que a resina é colocada no piso, Delson faz as primeiras intervenções, com tinta. Deixa que o chão sofra a ação do tempo. Passados alguns meses, ele e sua equipe removem do piso o que ele chama de “pele”. A partir daí, utiliza técnicas cirúrgicas para o tratamento destas “peles”, tais como transplantes, implantes, suturas, enxertos e incisões. É o encontro do médico com o artista. Uchôa cursou medicina pela Universidade Federal de Alagoas e mesmo nunca tendo exercido a profissão, os procedimentos e vocabulário clínico passaram a inspirar seu processo artístico. “A medicina dá uma sofisticação ao espirito humano”, diz ele.  “Xadrez de Chão”, que integra a coleção de Bernardo Paz, foi à primeira obra retirada do piso, e consiste dos retalhos de dois quartos e duas salas.

“Quando eu comecei a descolar o piso da casa, eu queria que ficasse registrada uma vida em cima daquele suporte. Eu queria que a circulação dos quartos, da sala, o desgaste, os vestígios da vida que aquilo ali estava tendo, pelo cachorro, formiga, pequenos insetos, migalhas de pão, qualquer coisa que ia caindo no chão de resina, que eu ia passando assumindo toda essa questão para quando esse trabalho saísse, ele já saia carregado de informação, ou seja, de uma vida, uma pintura que foi habitada,” comenta.

O rastro luminoso do trabalho do alagoano corre mundo a fora. Dentre os grandes eventos culturais mundiais, Delson Uchôa já participou da mais antiga e consagrada Biennale di Venezia, Itália (2009); da I Bienal de Assunção, Paraguai (2015); da 12ª Bienal do Cairo, Egito (2010); e da 10° Bienal de La Habana, Cuba (2009).

No Brasil, mostrou seu trabalho na mais importante Bienal Internacional de São Paulo – a 24ª Bienal da Antropofagia; Bienal Internacional de Curitiba, Museu Oscar Niemeyer; VIII Salão Nacional de Artes Plásticas, Museu Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1985); Arte Pará Edição 2005, Fundação Rômulo Maiorana, Belém; para citar alguns. Tem trabalhos em coleções públicas e tantas outras obras em coleções particulares, a exemplo do Ludwig Museum, Koblenz, Alemanha; Museu de Arte Contemporânea de Niterói; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Vogt Collection, Berlim, Alemanha; Coleção Inhotim Centro de Arte Contemporânea.


Texto: Iranei Barreto | Créditos das imagens: Acervo pessoal do artista

A primeira versão desta postagem publicada em 2016 – Confira AQUI

Publicações no Jornal de Arapiraca –  2020  |  2016

 

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